
A jornada em The Blood of Dawnwalker começa com uma fuga desesperada no meio da noite. O protagonista tenta escapar das autoridades locais enquanto protege sua jovem irmã, portadora de lepra. A tentativa falha: encurralados pelos soldados da cidade e diante da recusa fria do comandante em demonstrar piedade, e a vida da garota fica por um fio. Enquanto imploramos por suas vidas com os olhos marejados, o inevitável parece selado… Porém, o inesperado acontece: um bando de vampiros surge das sombras, chacinando a guarda em uma cena de impacto cinematográfico. Com um aviso sombrio de que os tempos mudaram, os predadores deixam claro que aquilo era apenas o começo.
Esse é o prelúdio impactante do título de estreia da Rebel Wolves — estúdio formado por ex-integrantes da CD Projekt RED, veteranos que trabalharam em obras aclamadas como The Witcher 3: Wild Hunt e Cyberpunk 2077.
Uma trama que prende do início ao fim
Após um prólogo marcante, o jogo corta para uma cena do passado. Aqui, estamos trabalhando no campo ao lado do nosso pai e dos nossos irmãos. A caçula se aproxima trazendo uma rosa em um gesto de carinho. Em retribuição, dizemos que, se ela colher mais daquela mesma flor, faremos uma coroa de rosas para presenteá-la. Ela sorri imediatamente e pergunta se isso é de fato uma promessa, e com um breve aceno de cabeça, confirmamos que sim.
No horizonte, surgem nossa mãe e a irmã mais velha trazendo cestos de coleta com o almoço, acenando em nossa direção. Nosso pai nos dá um tapinha acolhedor e vai ao encontro da esposa, que comenta ter acordado cedo para preparar a refeição, brincando que merece uma recompensa — ao que ele prontamente atende com afeto.
Quando todos são chamados para comer, buscamos a pequena, que olha fixamente para o fundo de um penhasco à beira da floresta. Nós a alertamos sobre os perigos do local, mas ela sai em disparada rumo às árvores, obrigando-nos a ir atrás dela. Ao chegar ao ponto onde ela supostamente estaria, nos deparamos com a cena que desencadeia o primeiro tutorial de combate.

Um mundo moldado pelas ações e decisões do jogador
Há muito tempo um título não capturava tanto a minha atenção quanto The Blood of Dawnwalker. Os motivos para esse impacto são fundamentais: competência técnica, profundidade narrativa e forte apelo carismático.
Embora apresente semelhanças notáveis com a aclamada franquia The Witcher — em especial com o terceiro capítulo —, o jogo demonstra uma visão clara do seu próprio conceito. A execução é coesa e precisa, utilizando suas referências de maneira equilibrada, sem comprometer a identidade original do projeto. Nesse aspecto, a desenvolvedora entregou um trabalho exemplar.
Trata-se de um RPG de ação e aventura em mundo aberto onde as escolhas moldam o rumo da narrativa. A jogabilidade traz semelhanças com títulos renomados como já citado The Witcher 3, For Honor e Kingdom Come: Deliverance — com os dois últimos sendo inspirações diretas no sistema de combate, que é, sem dúvida, um dos pontos mais marcantes da
experiência.
Na exploração em terceira pessoa, assumimos o controle de Coen. Fora de combate, a movimentação básica permite andar, correr, pular, interagir com o cenário e acionar uma visão especial para destacar objetos de interesse no ambiente.

Exploração simples e direta
O título adota um sistema clássico e amplamente utilizado na indústria, refinando fórmulas consagradas com adaptações pontuais. Após a conclusão do prólogo no vilarejo inicial, o mapa aberto é totalmente liberado, garantindo liberdade total de navegação com pouquíssimas restrições, já que o protagonista conta com suas habilidades básicas desde os momentos iniciais. A visualização da cartografia oferece dois modos alternáveis: no primeiro, os ícones de atividades surgem apenas mediante aproximação, e no segundo, o mapa exibe pontos de interrogação (?) que revelam a natureza do evento ao chegar perto.
A locomoção pode ser feita a pé ou através de uma técnica desbloqueável na árvore de habilidades, responsável por aumentar drasticamente a velocidade do personagem — recurso que também serve para escapar de confrontos indesejados. Para a travessia vertical e transposição de obstáculos, é possível utilizar uma habilidade de teletransporte de curto alcance. Além disso, podemos escalar torres que atuam como pontos de observação, oferecendo uma visão panorâmica e a opção de marcar um número limitado de locais de interesse.
Devido à natureza completamente aberta, o jogo adota uma filosofia de exploração que lembra bastante a franquia The Legendo of Zelda. Não há portões mágicos ou paredes invisíveis travando o seu progresso; caso o jogador seja bom mecanicamente e cheio de coragem, é perfeitamente possível caminhar direto até o antagonista principal e enfrentá-lo já no nível 1. Essa quebra das amarras tradicionais empodera o jogador e torna cada descoberta muito mais orgânica e gratificante.

Combate e Gestão de Tempo (entre a cruz e a espada)
Assim que deixamos o vilarejo inicial, o verdadeiro brilho do jogo se revela. O objetivo principal é claro: salvar nossa família. Para isso, há apenas uma exigência central: cumprir a missão em até 30 dias, divididos em ciclos de dia e noite. Essa mecânica funciona como uma faca de dois gumes. Diversas missões secundárias e atividades consomem esses ciclos — reduzindo o tempo limite para a campanha principal —, o que exige avaliar criteriosamente quais tarefas priorizar. Além disso, certos eventos só ficam disponíveis em períodos específicos, exigindo múltiplos ciclos ou até dias inteiros para serem concluídos.
Diante dessa limitação, a gestão do tempo torna-se um pilar estratégico. Embora essa decisão de design possa parecer incomum para um título de mundo aberto, ela se alinha com precisão à urgência da narrativa. Como cada atividade concluída fortalece o personagem e aprofunda o conhecimento sobre seu universo, a escolha do que priorizar torna-se um dilema constante. Apesar de a mecânica macro de tempo ser excelente, a execução micro deixa a desejar em algumas sidequests, não soando orgânica.
A missão “Sangue Perdido” é um exemplo claro, onde encontrar e enfrentar um monstro consome um tempo desproporcional frente ao seu peso narrativo. Mais latentes são os eventos aleatórios: a caminho de encontrar a personagem Anca, investigar uma carruagem quebrada e lutar contra um simples inimigo fez o tempo avançar um período inteiro, o que não faz sentido quando comparado a impeditivos reais que bloqueiam a gameplay.

Entre o homem e a fera
A dinâmica de combate une conceitos consagrados para transformar os confrontos em uma verdadeira “dança”, permitindo combinar e sincronizar perfeitamente o uso de espadas, garras e magias. A mecânica de confronto é refinada e estruturada em quatro direções distintas para ataque, defesa, esquivas e aparo. Ao repelir investidas na direção e no tempo corretos, abre-se a janela para o parry, permitindo engatar habilidades devastadoras.
O sentimento de evolução é contínuo, somado à tensão constante do limite de 30 dias. Por fim, o sistema de infâmia adiciona uma camada dinâmica: quanto mais tarefas concluímos, maior se torna nossa reputação. A árvore de habilidades divide-se em abordagens principais, sustentando a dualidade entre o dia e a noite:
Para elevar o aspecto de RPG, há um ótimo sistema de criação de poções e podemos melhorar armas e armaduras de forma constante. A imersão, contudo, sofre um golpe duro ao assumirmos nossa forma de vampiro durante a noite: ao tentar conversar com as pessoas na rua, elas simplesmente não parecem assustadas e reagem apenas quando utilizamos nossos poderes vampirescos diretamente. Isso quebra a fantasia de terror que o jogo vende e soa deslocado no violento e ditatorial regime Vrakhiri.

Um mundo bonito, coeso e modesto
Desenvolvido ao longo de quatro anos por uma equipe de aproximadamente 160 profissionais, The Blood of Dawnwalker foi construído na Unreal Engine 5, motor bastante popular entre as desenvolvedoras. No aspecto gráfico, o título entrega modelagens muito bem-feitas, expressões faciais de qualidade e uma boa captura de movimentos, garantindo fluidez ao protagonista e aos inimigos, além de efeitos práticos bastante satisfatórios. Trazendo de fato a fantasia de estarmos na Polônia do Século XIV durante a peste negra.
A direção de arte demonstra grande coerência com a época retratada, apoiada por uma excelente paleta de cores com saturação bem dosada. Os NPCs são variados e bem representados, a caracterização e o detalhamento das vestimentas ajudam a ditar o tom da experiência, construindo uma atmosfera envolvente.
O título foi testado no PlayStation 5 e em um PC High-End. No console da Sony, ao optar pelo Modo Qualidade, a execução mantém-se aceitável na maior parte do tempo, registrando poucas quedas de quadros durante a jogatina. Contudo, a estabilidade degrada consideravelmente na última missão e na busca pelo final secreto. Durante esses momentos no PS5, a aplicação fechou inesperadamente duas vezes, além de apresentar engasgos frequentes no áudio. Além destes problemas citados, o título não possui o suporte ao HDR nativo.
No PC, por mais estonteantes que sejam, os gráficos não justificam a instabilidade técnica e a performance geral do título, que engasga até em máquinas mais potentes. Assim como no PS5, e como já citada a falta do HDR— fomos obrigados a recorrer ao NVIDIA RTX HDR para extrair o verdadeiro visual das áreas escuras, caso contrário, a experiência seria lavada.
A excelência sensorial destaca-se pelo trabalho impecável de áudio, sonoplastia e dublagem:

Um jogo excelente que, com alguns ajustes, pode se tornar memorável
The Blood of Dawnwalker já se consolida como um clássico instantâneo e se posiciona como um forte candidato a um dos melhores títulos do ano. Grande parte dessa conquista se deve à competência da Rebel Wolves e à sólida tradição da escola polonesa de desenvolvimento.
A narrativa, embora direta em sua premissa, possui camadas profundas que prendem o jogador por dezenas de horas, contando com vários finais. Após mais de 50 horas, a sensação é de que ainda há muitos segredos a explorar. O universo é coeso, os personagens são cativantes e o roteiro é impecavelmente escrito. As missões secundárias agregam real valor à trama principal e, somadas à excelente dublagem e aos diversos arquivos espalhados pelo mapa, enriquecem a lore de forma exemplar.
No aspecto técnico da jogabilidade, o título se destaca ao absorver suas referências sem perder a originalidade. O mapa adota um formato de mundo aberto contido, embora a variação de cenários seja um pouco limitada. Contudo, o ponto que mais exige atenção é a otimização no console da Sony: o atraso no carregamento de texturas, instabilidades e quedas na taxa de quadros chegam a incomodar, ainda que sejam falhas passíveis de correção via patches. Sentiu-se também a falta de biomas mais diversificados e eventos climáticos dinâmicos — elementos marcantes em sua principal inspiração, The Witcher 3.

Pontos Fortes
Pontos Fracos:
The Blood of Dawnwalker é uma estreia impressionante da Rebel Wolves que honra a tradição dos RPGs poloneses, combinando um combate exigente, excelente gestão de tempo e uma narrativa envolvente. Embora sofra com instabilidades técnicas e limitação de biomas, suas qualidades se sobressaem e o tornam indispensável para fãs do gênero.
8.5
Jogo analisado com cópia fornecida gentilmente pela Bandai Namco Entertainment para PlayStation 5. A cópia para PC (Steam) foi adquirida pelo segundo redator, Pedro “Timebringer” Alves. O título possui localização em português e também está disponível Xbox Series X|S.