Stupid Never Dies – Review

David "Fiuzer" CarvalhoAnálises06/11/202676 Visualizações

Até onde você pode chegar por uma paixão?

Stupid Never Dies é um RPG de ação em 3D que coloca o jogador no controle de Davy, um zumbi considerado o mais fraco de sua espécie, que embarca em uma jornada por uma masmorra dominada por monstros. Movido por um amor bastante inusitado, seu objetivo é derrotar o Rei dos Monstros, recuperar conhecimentos perdidos da humanidade e trazer Julia, uma jovem humana que morreu congelada durante a Grande Guerra, de volta à vida.

Desenvolvido pela GPTRACK50 e publicado globalmente em parceria com a SEGA, o jogo chegou ao PC e ao PlayStation 5 em 21 de outubro de 2026. A aventura mistura combate frenético, progressão acelerada e uma estética inspirada na cultura pop-punk, apostando em uma proposta bastante irreverente. Durante as incursões pela masmorra, Davy pode devorar monstros para roubar suas habilidades, assumir diferentes formas e modificar partes do próprio corpo com equipamentos que ampliam seus atributos e desbloqueiam novas possibilidades de combate. Com uma combinação de humor absurdo, transformações e ação, Stupid Never Dies busca construir uma experiência tão caótica quanto sua própria premissa.

Um humor tão idiota quanto genial

Uma coisa de que gostei bastante é que o jogo é realmente “estúpido”. E não estou falando isso como uma crítica, muito pelo contrário! O próprio nome já entrega um pouco da proposta, mas é impressionante como os desenvolvedores abraçaram completamente esse lado mais bobão e cômico da obra.

Um exemplo disso é o próprio sistema de combate. O parry, que normalmente seria tratado como uma mecânica séria e importante, aqui recebe o nome de “Aparada Idiota”, só para manter o tom humorístico do jogo. E isso não acontece apenas em momentos isolados. Praticamente tudo possui alguma piadinha, exagero ou situação completamente absurda que acaba arrancando pelo menos uma risada do jogador.

O mais interessante é que o jogo não parece ter vergonha de ser assim. Ele sabe exatamente o tipo de experiência que quer entregar e abraça essa identidade do começo ao fim. É aquele humor que não precisa fazer muito esforço para funcionar, porque a própria personalidade do jogo já faz boa parte do trabalho.

Uma direção de arte que vai muito além dos cenários

A direção de arte desse jogo é fenomenal, e gostaria muito de ressaltar o quanto ela é impressionante. E não estou falando apenas dos cenários, personagens ou ambientes que você encontra durante as partidas.

O cuidado artístico está presente em absolutamente TUDO! Nas cenas, na interface, na HUD, no gerenciamento de itens e até mesmo nos pequenos elementos visuais que aparecem durante a jogatina. Praticamente nada parece ter sido feito de maneira genérica ou simplesmente jogado de qualquer jeito para cumprir uma função.

Tudo conversa com a identidade visual do jogo, criando uma experiência extremamente consistente e inusitada durante boa parte da campanha. É muito legal perceber que os desenvolvedores não limitaram sua criatividade apenas ao lobby e às masmorras, mas levaram essa personalidade para praticamente todos os aspectos da apresentação.

E eu digo e repito: é praticamente impossível não ficar, no mínimo, impressionado com o que fizeram aqui. É aquele tipo de direção de arte que faz você perceber o cuidado colocado até nos detalhes que muitas vezes passariam despercebidos.

Uma identidade visual que não se perde durante a jogatina

E é justamente essa consistência que merece um destaque à parte. Muitas vezes, encontramos jogos com cenários visualmente impressionantes, mas que, quando vistos fora do “mundo explorável”, como nos inventários e nas interfaces, deixam a desejar. Muitas vezes, esses elementos nem combinam com a temática do game. Aqui, felizmente, não tive essa impressão em nenhum momento.

Existe uma preocupação muito grande em fazer com que todos esses elementos sigam a mesma identidade visual. A HUD, o gerenciamento de itens, as cenas e até as pequenas interações durante as partidas parecem fazer parte de um mesmo projeto artístico, em vez de serem apenas recursos separados que cumprem suas respectivas funções.

Pode parecer um detalhe pequeno se importar com a aparência dos menus e coisas assim, mas é justamente esse tipo de cuidado que ajuda a construir uma experiência mais coesa. Você não está apenas explorando um jogo com cenários bonitos; está experimentando um projeto em que praticamente tudo foi pensado para transmitir a mesma personalidade.

Considerando o quanto gostei da direção de arte, seria impossível deixar esses cuidados passarem despercebidos.

Pequenos fragmentos de uma história maior

Conforme você progride pela história, consegue recuperar arquivos do celular de Julia, sua amada. E não vou mentir: é bem divertido acompanhar os áudios, as fotografias e as mensagens que você encontra ao longo das runs.

Esses pequenos fragmentos acabam funcionando como uma espécie de empurrãozinho para Jack continuar sua jornada e encontrar motivação para salvar Julia, mesmo sem ela sequer saber da existência dele. É uma situação meio absurda quando você para para pensar, mas combina perfeitamente com o tom do jogo.

Além de trazerem momentos interessantes, esses arquivos ajudam a construir um pouco mais da relação que Jack idealiza com Julia, dando ao jogador pequenos motivos para continuar acompanhando essa história.

É um recurso simples, mas que funciona muito bem dentro da proposta narrativa, principalmente porque você vai descobrindo essas informações aos poucos, conforme avança.

Experiência que funciona muito bem em pequenas doses

Outro ponto interessante é como a estrutura das runs combina com a proposta mais descontraída do jogo. Você pode passar bastante tempo jogando ou simplesmente abrir uma partida e aproveitar alguns minutos. Não é necessário encarar cada sessão como um compromisso gigantesco para conseguir aproveitar a experiência.

Esse formato também ajuda a manter o ritmo da jogatina. Você entra, enfrenta algumas situações completamente absurdas, aproveita o humor e acompanha um pouco da progressão. Quando percebe, já está pensando em continuar a jornada e descobrir o que vem pela frente.

É uma característica que considero importante, principalmente porque nem todo jogo precisa exigir horas e horas de dedicação para conseguir prender a atenção do jogador. Às vezes, ter uma experiência divertida, com uma identidade própria e uma estrutura que dá vontade de continuar jogando, já é mais do que suficiente.

Uma trilha sonora que combina perfeitamente com o caos

Existem duas coisas que esse jogo sabe fazer muito bem. Uma delas eu já mencionei: a direção de arte. A outra está diretamente relacionada à trilha sonora e às músicas que encontramos durante as runs.

São simplesmente incríveis! Gostei de praticamente todas as músicas que fui encontrando ao longo das partidas, e o principal aqui não é apenas ter uma trilha sonora boa, mas ter músicas que realmente combinam com a identidade e o ritmo do jogo. Dificilmente você vai encontrar uma música arrastada ou até mesmo lenta e calma, pois isso simplesmente não se encaixa na proposta que o jogo quer entregar.

Tudo parece conversar muito bem com a proposta visual e com o humor apresentado durante a jogatina. São músicas que ajudam a construir a atmosfera, dão personalidade aos momentos e tornam a experiência ainda mais divertida.

É aquele tipo de trilha sonora que você percebe que não foi escolhida aleatoriamente. Dá para notar facilmente que as músicas foram escolhidas a dedo pelos desenvolvedores. Existe uma preocupação em fazer com que o áudio seja mais um elemento importante da identidade do jogo, e não apenas um acompanhamento para o que está acontecendo na tela.

A história demora para engrenar, mas surpreende

Toda a ambientação do game é construída para fazer você dar pelo menos uma risadinha ou achar graça de alguma situação completamente idiota. Seja pelas piadas, pelos acontecimentos absurdos ou até mesmo pelo alívio cômico proporcionado pelo Gulinha (personagem do jogo), que esquece as coisas com uma facilidade impressionante, kkkk.

Mas, deixando um pouco de lado todo esse teor cômico, a história acaba sendo uma surpresa interessante.

No começo, confesso que não estava esperando muita coisa. O desenvolvimento é bem lento e, durante boa parte das primeiras horas, você fica com aquela sensação de que a narrativa será apenas mais uma historinha simples, sem grandes acontecimentos ou momentos realmente marcantes.

Só que, conforme você avança, as coisas começam a mudar. A história ganha mais profundidade, apresenta situações inesperadas e até alguns plot twists que, sinceramente, eu não estava esperando encontrar aqui.

É interessante perceber como um jogo que inicialmente parece tão descompromissado consegue desenvolver uma narrativa um pouco mais elaborada do que aparenta. Não diria que estamos diante de uma história revolucionária, mas certamente existe mais conteúdo aqui do que aquela primeira impressão deixa transparecer.

Quem dera a lentidão fosse somente do nosso protagonista…

Existe um problema muito evidente que me incomodou bastante: o jogo demora demais para chegar ao ponto realmente bom da história. Sinto que a narrativa se prolonga muito mais do que deveria, levando um tempo considerável até realmente engrenar e apresentar os acontecimentos mais interessantes.

Na minha opinião, se o jogo fosse uns 20% ou 30% menor, ou simplesmente tivesse um desenvolvimento mais proporcional entre o começo, o meio e o fim, a experiência narrativa seria consideravelmente melhor. Afinal, não adianta ter boas ideias e reviravoltas interessantes se o jogador precisa passar por um caminho longo demais até chegar lá.

Eu, sinceramente, não duvido nada que muita gente tenha dropado o jogo antes de a história ficar interessante. Quem ficou até o “switch” do jogo sabe como a narrativa melhora. Você começa até a prestar mais atenção nos detalhes que antes não notava.

Ainda assim, fico contente em perceber que existe uma preocupação em entregar algo além do humor e da jogabilidade, mesmo que a execução pudesse ser um pouco mais enxuta e menos enrolada.

Considerações finais

No fim das contas, o que mais me impressionou nesse jogo foi a personalidade que ele consegue transmitir em praticamente todos os seus aspectos. A direção de arte é simplesmente fantástica, o humor funciona muito bem e a trilha sonora complementa perfeitamente toda essa identidade maluca que os desenvolvedores construíram.

Também vale destacar o cuidado com a apresentação como um todo. Não é apenas uma questão de ter ambientações boas ou personagens interessantes, mas de conseguir levar essa identidade para praticamente tudo o que aparece na tela. É um daqueles detalhes que fazem o jogo se destacar e demonstram o quanto existe de personalidade no projeto.

A história também acabou me surpreendendo, principalmente por apresentar muito mais do que eu esperava inicialmente. Apesar de demorar bastante para engrenar e se prolongar mais do que deveria, ela consegue entregar bons momentos e algumas reviravoltas que tornam a jornada mais interessante.

É aquele tipo de jogo que sabe exatamente o que quer ser e não tem medo de abraçar suas próprias ideias, por mais absurdas que sejam. E, sinceramente? Isso faz uma diferença gigantesca na experiência.

Veredito

Se você procura um jogo com bastante personalidade, humor, direção de arte diferenciada e uma trilha sonora de qualidade, acredito que dificilmente vai se decepcionar com Stupid Never Dies. Apesar dos problemas de ritmo na narrativa, o conjunto da obra é extremamente divertido e consegue entregar uma experiência que vai muito além da primeira impressão. Certamente, é um daqueles jogos em que nem tudo precisa ser levado a sério para ficar gravado na sua memória.

Nota

8

Jogo analisado com cópia fornecida gentilmente pela SEGA para PC. O título possui localização em português e também está disponível para PlayStation 5.

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