Hubert – Review

David "Fiuzer" CarvalhoAnálises21/10/202636 Visualizações

Entre o humor de um cachorro e a repetição de uma boa ideia

Hubert é um jogo de aventura que coloca o jogador na pele de um cão pastor (ou para nós brasileiros, pastor alemão) responsável por proteger seu rebanho e ajudar sua dona, a Lily . Em meio a paisagens naturais, a aventura mistura exploração, tarefas do cotidiano de um cachorro e situações cômicas, buscando transformar atividades simples, como reunir ovelhas e seguir rastros, em uma experiência descontraída.

Desenvolvido e distribuído pela Brocap Studio s.r.o., Hubert aposta em uma proposta que foge do convencional ao colocar o jogador no controle de um cachorro, explorando suas particularidades tanto na gameplay quanto no humor. Ao longo da jornada, é preciso cuidar do rebanho, explorar os arredores e cumprir diferentes tarefas enquanto o protagonista faz piadas e questiona alguns dos hábitos dos humanos. Apesar da ideia curiosa e do tom bem-humorado, o jogo também precisa sustentar essa proposta com mecânicas variadas e uma progressão capaz de manter a experiência interessante até o final.

A ideia é bastante curiosa, controlar um cachorro não apenas na aparência, mas também nas atividades que fazem parte de sua rotina. Conduzir ovelhas, seguir rastros, procurar objetos e explorar a região são algumas das atividades que dão forma à aventura. É uma proposta que pode despertar a curiosidade justamente por fugir do padrão de tantos outros jogos, mas que também precisa transformar essas ações em algo divertido o suficiente para sustentar uma campanha inteira.

E é aí que minha experiência com Hubert fica dividida. O título tem personalidade, um protagonista engraçado e bem-humorado, e uma trilha sonora que considero disparado seu maior acerto. Entretanto, por trás dessa proposta simpática, encontrei problemas de repetição, mecânicas pouco desenvolvidas e algumas escolhas de design que acabam prejudicando o resultado.

O humor e a personalidade de Hubert

Um dos pontos que mais me chamou a atenção em Hubert foi a dublagem do nosso protagonista peludo. O personagem tem um tom de humor muito bom, fazendo várias piadinhas desde o início do game e trazendo um alívio cômico que funciona muito bem. É difícil não dar risada em alguns momentos, principalmente porque boa parte das situações engraçadas surge justamente da perspectiva de um cachorro vivendo em um mundo feito para humanos.

E eu acho muito engraçado como o jogo realmente coloca você para fazer coisas de cachorro. Você precisa guiar ovelhas, correr por aí e até encontrar o lugar perfeito para fazer suas necessidades, se é que vocês me entendem (risadas). O game também brinca com algumas palavras que nós, humanos, usamos no cotidiano, questionando, por exemplo, por que chamamos de “papel higiênico” em vez de “papel de cocô”.

São esses pequenos detalhes que ajudam a dar personalidade à experiência. Em vez de transformar Hubert em apenas mais um protagonista genérico, o jogo aproveita sua condição de cachorro para criar situações que dificilmente funcionariam da mesma maneira com um personagem humano.

O problema é que nem todas as tentativas de humor funcionam tão bem. Existem momentos em que o jogo parece insistir em situações que acabam sendo mais toscas do que engraçadas.

A trilha sonora é o grande destaque da obra

Se existe um aspecto de Hubert que considero disparado o melhor, é a trilha sonora. Em uma aventura que aposta tanto na natureza, na exploração e nos pequenos momentos do cotidiano, a música tem um papel fundamental para dar identidade à experiência.

O que mais me agrada é, como ela contribui para a atmosfera do game. Enquanto você explora os ambientes, acompanha o rebanho e percorre as paisagens, a trilha ajuda a criar aquela sensação de tranquilidade que combina perfeitamente com a proposta. É o tipo de elemento que faz a exploração ficar mais agradável, mesmo quando as atividades em si começam a se repetir. E quando eu digo que as músicas são boas, são realmente boas, e encaixam perfeitamente no meu gosto pessoal.

Para mim, esse é um dos maiores méritos do jogo, a música consegue dar mais personalidade a momentos que, mecanicamente, não são tão interessantes. Ela ajuda a sustentar a experiência e reforça o clima que os desenvolvedores queriam transmitir.
É justamente por isso que considero a trilha sonora o ponto mais forte da obra. Enquanto outros aspectos deixam a desejar, a parte musical consegue se destacar e contribuir para que a aventura tenha momentos genuinamente agradáveis.

Uma gameplay que se torna repetitiva

A proposta de controlar um cachorro pastor é interessante, mas o problema começa quando percebemos que o jogo não consegue desenvolver essa ideia tão bem quanto poderia.

Hubert se torna repetitivo muito facilmente, pois boa parte das tarefas segue uma estrutura bastante parecida. É sempre reunir as ovelhas, ir atrás da ovelha pequena, pegar um graveto e cumprir mais algum objetivo semelhante. No início, essas atividades funcionam justamente por serem diferentes do que estamos acostumados a fazer em outros jogos, mas essa novidade perde força conforme a campanha avança.

O problema não é necessariamente a simplicidade da proposta. Um jogo não precisa ter dezenas de sistemas complexos para ser divertido. A questão é que, depois de algumas horas, eu esperava encontrar mais variações nas tarefas, novas maneiras de interagir com o ambiente ou situações que realmente mudassem a dinâmica da aventura.

Em vez disso, parece que o jogo encontra uma fórmula que funciona razoavelmente bem e passa tempo demais insistindo nela. O que inicialmente é uma experiência curiosa acaba virando uma sequência de atividades previsíveis.

Acredito que os desenvolvedores poderiam ter aproveitado melhor a perspectiva canina para criar desafios mais variados, explorando de maneiras diferentes o faro, a movimentação e os instintos do protagonista. Afinal, existe bastante potencial em controlar um cachorro, mas esse potencial precisa ser acompanhado de mecânicas que mantenham o jogador interessado.

O combate e mecânicas pouco desenvolvidas

Outro aspecto que me incomodou foi a maneira como o jogo tenta introduzir situações de combate. Sem entrar em spoilers, existem algumas partes em que você participa de uma espécie de batalha, mas a execução é tão ruim que, no final, só resta dar risada.

O problema é que a situação não apresenta mecânicas suficientemente desenvolvidas para sustentar aquilo que está acontecendo. Fica aquela sensação de que o jogo queria criar um momento de tensão, mas não construiu sistemas capazes de transformar essa intenção em algo realmente divertido.

E aí eu me pergunto: por que colocar esse tipo de “mecânica” no game se ela não consegue entregar uma experiência minimamente interessante?

A situação acaba prejudicando a imersão, porque você deixa de prestar atenção no que está acontecendo para perceber as limitações da própria gameplay, o que vai por mim, é impossível você não perceber as limitações. Em vez de funcionar como um momento marcante da aventura, acaba se tornando uma das partes mais difíceis de levar a sério.

Nos confrontos citados, é quase tudo a mesma coisa. Os inimigos apresentam padrões de ataques muito semelhantes entre si, enquanto as opções disponíveis para lidar com eles são bastante limitadas. A mecânica de esquivar e atacar, por si só, não é necessariamente horrível, mas precisa de um mínimo de profundidade e variedade para funcionar bem.

Sinceramente? Senti que essa parte foi implementada de maneira bastante precária. Os confrontos não parecem explorar todo o potencial da proposta e acabam destoando do restante da experiência. Por exemplo, eles poderiam adicionar ao combate mecânicas que já existem para a exploração, como o latido e o faro: o latido para causar uma espécie de desestabilização e o faro para prever quando o inimigo vai atacar, ou algo do tipo. Considerando que o jogo funciona melhor quando se concentra nas atividades de um cachorro pastor, talvez fosse mais interessante desenvolver essas mecânicas principais em vez de incluir sequências de combate tão pouco elaboradas.

Os gráficos e a inevitável comparação

Outro ponto que preciso ressaltar é a parte visual. Durante todo campanha de Hubert, joguei com tudo no máximo, tive a impressão de que os gráficos estavam bem abaixo do que as imagens promocionais exibidas na página da Steam me fizeram esperar, principalmente os posters.

Pode ser que eu estivesse exigindo demais? Pode. Ainda assim, achei importante mencionar isso, porque a apresentação visual é um dos elementos que ajudam a vender a proposta do jogo. As paisagens naturais e a atmosfera são partes importantes da experiência, então é natural criar certas expectativas ao observar as imagens divulgadas.

Não estou dizendo que o jogo seja visualmente desastroso, mas senti uma diferença considerável entre aquilo que esperava encontrar e o que vi durante a minha experiência. E, querendo ou não, esse tipo de impressão pode influenciar a decisão de compra de muita gente.

É importante separar as coisas, uma direção artística interessante não significa necessariamente que a qualidade técnica esteja no mesmo nível. Um jogo pode ter cenários bonitos e uma identidade visual agradável, mas ainda deixar a desejar na apresentação gráfica quando comparado ao material divulgado.

No meu caso, essa diferença foi perceptível o suficiente para merecer uma menção na análise.

Uma boa ideia que precisava de mais variedade

Olhando para o conjunto da obra, acredito que o maior problema de Hubert não está na sua proposta, mas na maneira como ela é desenvolvida ao longo da campanha.

A ideia de viver a aventura pela perspectiva de um cão pastor é bastante interessante, e o humor do protagonista ajuda a tornar a experiência mais carismática. Entretanto, essas qualidades não conseguem esconder completamente a repetição das tarefas e a falta de profundidade de algumas mecânicas.

O jogo precisava encontrar mais maneiras de surpreender o jogador. Pequenas mudanças nos objetivos, novas formas de utilizar o faro e a movimentação ou atividades que explorassem melhor os comportamentos de um cachorro poderiam fazer uma diferença considerável.

Também senti que algumas sequências foram incluídas sem o devido cuidado com a execução. Isso fica evidente principalmente nas partes de combate, que não apresentam a mesma qualidade que a proposta central tenta transmitir.

No fim, Hubert acaba sendo um daqueles jogos em que você percebe o potencial da ideia, mas também fica imaginando como ela poderia ter sido melhor aproveitada.

Considerações finais

Hubert é uma aventura que me conquistou em alguns aspectos, principalmente pelo humor do protagonista e pela trilha sonora, que considero disparado o ponto mais forte do game. A maneira como o jogo brinca com o cotidiano de um cachorro rende situações engraçadas e ajuda a criar uma identidade própria para a experiência.

Por outro lado, a repetição das tarefas começa a pesar, os inimigos apresentam pouca variedade nos confrontos e algumas mecânicas parecem não ter recebido o cuidado necessário. A parte visual também me deixou com a impressão de que o resultado final não corresponde totalmente às expectativas criadas pelas imagens promocionais.

Não acho que a ideia seja ruim, muito pelo contrário. A proposta tem personalidade e poderia render uma experiência ainda mais interessante se houvesse mais variedade nas atividades e um desenvolvimento melhor de algumas mecânicas.

No fim das contas, o que fica é a sensação de que Hubert tinha potencial para ser muito mais do que acabou sendo. É um game com boas ideias e alguns destaques genuínos, mas que tropeça justamente naquilo que deveria manter a experiência interessante até o final.

Veredito

Hubert é aquele jogo que conquista pelo carisma, arranca algumas risadas e entrega uma trilha sonora excelente, mas acaba se perdendo na repetição e em mecânicas que parecem pouco desenvolvidas. A experiência tem seus méritos, porém faltou aproveitar melhor o potencial de controlar um cachorro para criar uma gameplay mais variada e consistente. No final, fica a impressão de que havia uma boa ideia aqui, mas que ela precisava de mais cuidado para realmente brilhar.

Nota

7

Jogo analisado com cópia fornecida gentilmente pela Brocap Studio s.r.o. para PC (Steam). O título possui localização em português e também está PlayStation 5.

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