
Desenvolvido e publicado por três estúdios internos da Saber Interactive (Saber Sérvia, Bósnia e Herzegovina), Clive Barker’s Hellraiser: Revival é um novo jogo de ação, aventura e survival horror baseado na obra literária do renomado autor que dá nome ao título.
O jogo foi lançado no dia 08 de outubro de 2026, e nesta análise, trago minha opinião sincera com base em uma experiência de mais de 20 horas de gameplay, para te ajudar a decidir se o título realmente vale o seu tempo e o seu dinheiro.

Sinopse Narrativa
A narrativa de Clive Barker’s Hellraiser: Revival abre com uma cena intensa e visceral entre o protagonista, Aidan Lynch, e sua namorada, Sunny (Yoon Sun-Hee). Durante uma sessão sadomasoquista, Sunny apresenta a Aidan uma variação do clássico cubo mágico: a Configuração da Gênese, um artefato antigo cujos segredos viraram a maior obsessão da garota.
Ao tocar a superfície do cubo, Sunny sente uma leve descarga elétrica percorrer os dedos. Intrigado, Aidan pega o objeto e o desliza pelo corpo da jovem. O artefato reage de forma bizarra: além de emitir pulsações elétricas, provoca pequenas lacerações na pele de Sunny, levando-a ao ápice do prazer por meio da dor. Enquanto isso, do lado de fora, uma figura enigmática mascarada observa o casal de dentro de um carro estacionado no escuro.
De volta ao quarto, o clima de intimidade é cortado bruscamente quando a realidade se contorce e uma enorme fissura dimensional se abre no ambiente. Como em um transe, Sunny caminha até o portal e desaparece. Nesse momento, assumimos o controle de Aidan para tentar resgatá-la. Essa sequência marca a primeira sessão de gameplay, funcionando como uma introdução aos poderes do artefato enquanto perseguimos Sunny por um labirinto em uma dimensão paralela até interagir com um objeto chave.

Logo após a interação, Aidan desperta do transe e encontra Sunny, estática. Ele tenta chamá-la para tirá-la daquele estado, mas a realidade se contorce novamente e quatro figuras macabras — os Cenobitas — emergem das sombras. Um dos seres se aproxima e questiona Sunny, perguntando se ela está pronta para transcender a carne e fazer parte de algo maior. Movida por um desejo incontrolável e pela busca do prazer absoluto, Sunny aceita a oferta sem hesitar.
Essa aceitação desencadeia uma execução grotesca e ritualística: correntes e ganchos de ferro surgem da escuridão, perfurando e esticando o corpo de Sunny ao limite. Em desespero, Aidan avança para salvá-la, mas é atingido por uma corrente e fica atordoado. Imobilizado, ele assiste horrorizado enquanto Sunny é partida ao meio, selando o pacto e dando início ao pesadelo. Logo em seguida, o protagonista perde a consciência.
Após a execução, Aidan desperta do desmaio no meio de um interrogatório e percebe que foi sequestrado por indivíduos mascarados. Ele está no subterrâneo de uma boate e passa a ser confrontado pelo antagonista principal do jogo. Ao constatar que Aidan não tem mais utilidade — e já em posse da Configuração da Gênese —, o vilão recusa uma oferta em dinheiro feita pelo protagonista e o deixa para morrer ali mesmo.

Sozinho, ferido, desarmado e totalmente nu, Aidan precisa encontrar um jeito de se libertar e escapar do cativeiro antes que seja tarde demais. É exatamente aqui que a estrutura principal do jogo começa.
Visão Geral de Gameplay
É nesse ponto que a experiência principal de Clive Barker’s Hellraiser: Revival engrena de verdade. O jogador desperta confinado: um dos braços está imobilizado junto ao corpo por arames farpados, enquanto o outro está pregado à cadeira de interrogatório. Passada a cena inicial, o objetivo imediato é escapar das instalações e emergir do subsolo desse clube sadomasoquista.
Mecânicas de Sobrevivência e Crafting
Gravemente ferido e cheio de lacerações, o protagonista passa por um breve tutorial de sobrevivência. O jogo introduz o sistema de crafting, exigindo que você procure suprimentos para fazer curativos básicos, essenciais para estancar o dano e diminuir o estado crítico do personagem.

Stealth e Movimentação
Estando desarmado e em um ambiente extremamente hostil, a melhor estratégia é a furtividade (stealth). A estratégia é andar agachado para reduzir o campo de visão dos inimigos e diminuir o barulho dos passos, garantindo uma travessia segura até a área seguinte.
Combate Melee e Gestão de Equipamentos
Ao alcançar uma sala específica, encontramos nossa primeira arma branca, o que dá início ao combate corpo a corpo (melee). As dinâmicas envolvem:

Armas de Fogo, Progressão e Lore
À medida que novas armas de fogo — como pistolas, escopetas e submetralhadoras — entram em cena, o jogo apresenta inimigos inéditos equipados com armaduras de proteção. Essa blindagem invalida o abate furtivo, já que impede o dano direto imediato.
A primeira arma de fogo que encontramos é uma pistola no corpo de um policial infiltrado. Na tentativa de socorrer sua parceira na mesma missão, o agente acabou sendo abatido. É possível conhecer a história dele por meio de um gravador de voz deixado junto ao corpo — um tipo de colecionável que, somado aos arquivos de texto espalhados pelos cenários, enriquece bastante a construção da narrativa e da lore do jogo.
A partir desse momento, o combate ganha outra dinâmica, permitindo eliminar inimigos sem proteção com um único disparo bem dado na cabeça.
A estrutura de combate de Hellraiser é simples e direta. Entre as ações básicas, podemos andar, correr, deslizar sob estruturas (pressionando um comando específico durante a corrida), esgueirar-se agachado e utilizar armadilhas de urso contra os oponentes. Além disso, com a Configuração da Gênese, ganhamos acesso a habilidades mágicas que ajudam bastante nos confrontos, como atear fogo e arremessar objetos cortantes para complementar os ataques corpo a corpo e à distância.

O sistema ganha mais profundidade à medida que progredimos pelo mundo natural. Todas as armas de fogo podem ser aprimoradas e o sistema de crafting oferece boa variedade. Por meio de receitas compradas com uma comerciante misteriosa, é possível fabricar curativos mais eficientes, munições, gazuas para abrir compartimentos trancados e kits de reparo. Também dá para usar a lanterna para iluminar áreas escuras, embora acendê-la perto dos inimigos vá atrair atenção indesejada.
Por outro lado, o mundo sobrenatural muda completamente a regra do jogo e elimina o combate direto: aqui o foco passa a ser puramente a sobrevivência. Precisamos escapar de armadilhas mortais e despistar o “Perseguidor” em sequências que alternam entre fuga e navegação de plataforma.
A experiência é complementada por diversos quebra-cabeças ambientais e confrontos marcantes contra chefes. Ao final da jornada, o jogo oferece dois desfechos possíveis. O bacana é que não há requisitos complexos para liberar cada um: dá para ver o segundo final apenas recarregando o arquivo de salvamento após a exibição dos créditos.

Gráficos, Direção de Arte e Desempenho
Desenvolvido na Unreal Engine 5, Clive Barker’s Hellraiser: Revival consegue entregar uma experiência marcante. Embora não seja um título AAA, o jogo assume com orgulho sua escala Double A (AA), compensando o orçamento menor com muitas qualidades técnicas e artísticas.
A estrutura é predominantemente linear — indo de um ponto A a um ponto B —, mas a progressão exige aquele backtracking clássico fortemente inspirado na franquia Resident Evil. Para avançar, é preciso explorar os cenários atrás de chaves ou itens específicos para desbloquear novas áreas.
Aspectos visuais e Inteligência artificial
A física e as expressões faciais dos inimigos cumprem bem o seu papel. A modelagem dos NPCs e adversários comuns é, talvez, o ponto de menor destaque visual, algo totalmente compreensível considerando o orçamento do projeto.
Já a inteligência artificial nas seções de stealth entrega sensações mistas:
Por outro lado, a representação do mundo sobrenatural é fascinante. O plano demoníaco é muito bem modelado e cheio de armadilhas detalhadas. Embora a paleta de cores seja dominada pelo cinza — o que pode causar certa repetição visual —, essas sequências alternam com o mundo real de forma fluida, trazendo boa variedade à jogabilidade e ao ritmo da campanha.

Desempenho e interface
A análise foi feita no PlayStation 5 no Modo Qualidade. Salvo alguns bugs pontuais, a experiência foi bastante satisfatória, mantendo uma taxa de quadros consistente e acompanhando bem a fluidez da jogabilidade.
A interface (HUD) é limpa e funcional, embora o mapeamento de botões exija uma breve adaptação: o comando frequentemente usado para trocar de arma em jogos de tiro em primeira pessoa é utilizado aqui para consumir itens de cura.
Áudio, design de som e dublagem
A sonoplastia e o trabalho de áudio surgem como a verdadeira “cereja do bolo” aqui. A ambientação sonora é excepcional: as cenas mais intensas e viscerais contam com uma mixagem individual impecável, enquanto os momentos de melancolia e tensão entregam uma paleta sonora consistente, que traduz perfeitamente a atmosfera opressiva desse universo.
Além disso, o som cumpre um papel fundamental na gameplay, telegrafando com precisão cada ação nossa, a movimentação dos inimigos e as reações do próprio cenário.
O trabalho de dublagem acompanha esse alto nível. As atuações são extremamente adequadas e transmitem com fidelidade a essência sombria da obra — algo que se estende desde os protagonistas até os NPCs mais secundários. Sem dúvidas, o setor de áudio se consolida como o grande destaque técnico do jogo.

Considerações finais
Clive Barker’s Hellraiser: Revival é um verdadeiro milagre nos dias de hoje, tanto pela coragem de abordar sua temática quanto pela atmosfera pesada, crua e sem pudores que entrega do início ao fim.
Em todos os aspectos, o título parece um retorno nostálgico ao final dos anos 80 e início dos anos 90. O respeito ao material original é impressionante: Pinhead e os demais Cenobitas surgem tão aterrorizantes quanto no filme clássico de 1987, dirigido pelo próprio Clive Barker.
A jogabilidade é familiar e agradável para quem é fã de survival horror nos moldes de Resident Evil, cumprindo muito bem o seu papel na maior parte do tempo, apesar de pequenos deslizes na IA. No geral, a qualidade técnica é excelente para o escopo do projeto, tendo na direção de arte e no design sonoro seus pontos mais altos. Com um preço bastante acessível nas lojas brasileiras, o jogo é uma recomendação indispensável para quem curte o gênero.

Clive Barker’s Hellraiser: Revival é uma carta de amor visceral e sem pudores ao terror clássico dos anos 80. Compensando seu escopo AA com uma atmosfera opressiva, design de som impecável e um respeito absurdo ao material original, o jogo supera seus pequenos deslizes de IA e entrega uma experiência obrigatória para fãs de survival horror.
8.5
Jogo analisado com cópia fornecida gentilmente pela Saber Interactive para PlayStation 5. O título possui localização em português e também está disponível Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2 e PC (Steam).