
Slots & Daggers é um RPG de fantasia dungeon crawler single-player que combina, de forma ousada, mecânicas de caça-níqueis (slot machine) e combate por turnos roguelite. Extremamente viciante, o título é embalado por contagiantes batidas eletrônicas de hip-hop e entrega uma jogabilidade arcade em um pacote disruptivo. A soma desses elementos resulta em uma experiência totalmente única e inusitada, capaz de render muitas horas de gameplay.
O jogo foi desenvolvido pelo criador berlinense Friedemann e publicado pela Future Friends Games Limited. Nesta análise, construída com base em mais de 7 horas de jogo, pretendo apresentar minha sincera opinião sobre a experiência obtida com a obra.
Ao abordarmos a história de Slots & Daggers, passamos diretamente pela sua jogabilidade, visto que ambas se fundem ao longo da jornada, tornando-se praticamente uma só — uma característica bastante comum em jogos do estilo roguelite. O título é estruturado em capítulos, e cada um deles apresenta uma micro-história que atua principalmente como pano de fundo para contextualizar a ambientação e justificar o gameplay.

No primeiro capítulo, denominado “Planícies da Dor”, somos introduzidos de forma orgânica às mecânicas iniciais. Já no segundo, “O Cemitério Sombrio”, temos a primeira micro narrativa propriamente dita, que nos contextualiza sobre os acontecimentos daquele universo. Nele, somos apresentados à trama com os seguintes dizeres: “O rei pedinte já comandou um exército de ladrões. Ele conta histórias do grande cerco à cidadela, da batalha de Kul. Agora ele guarda os portões do cemitério, fumando cigarros e contando as luas.”
E assim, sucessivamente, vamos conhecendo a narrativa do jogo que, junto à progressão, vai se entrelaçando até o fim da jornada de forma sucinta e fluida.
Falando agora sobre o ápice do jogo, onde nossas atenções devem ser literalmente projetadas: a jogabilidade de Slots & Daggers é simples, direta e, ao mesmo tempo, profunda, já que aqui cada tentativa se traduz em aprendizado. Como todo bom roguelike, a obra exige que você progrida por meio de inúmeras e distintas investidas. Nesse sentido, o título é extremamente satisfatório, desbloqueando novos equipamentos, habilidades passivas e recursos que fazem com que o jogador se sinta mais forte a cada ciclo — tudo isso sem se tornar maçante ou burocrático, como a maioria dos jogos do estilo na atualidade.

Quando entramos na tela inicial, temos a opção “Continuar”. Neste ponto, o jogo se mostra bastante amistoso, pois, uma vez que você derrota o chefe de um capítulo, é possível escolher entre iniciar uma nova partida desde o começo ou avançar diretamente para a primeira fase do novo capítulo desbloqueado, contando com uma quantidade predefinida de ouro que permite comprar melhorias e armas de forma bem dosada.
Neste mesmo menu, há a possibilidade de iniciar um “Novo Jogo”, opção que permite reiniciar toda a progressão do zero (ideal para quem deseja repetir todo o processo e revisitar o conteúdo desde o início). A loja de modificadores, que também pode ser acessada inclusive durante as partidas, permite a compra de melhorias permanentes com o uso de fichas obtidas ao progredir através das batalhas e ao final de cada tentativa nos capítulos.
Com essas fichas, podemos adquirir upgrades fundamentais, tais como: aumento do HP, maior resistência a ataques físicos e mágicos, ampliação do ouro recebido durante os embates e até mesmo a redução dos valores cobrados por novas melhorias e habilidades após as vitórias. Além das citadas, existem várias outras modificações permanentes que facilitam cada nova empreitada na tentativa de avançar até o desfecho do jogo. Ainda no menu principal, podemos acessar a aba de progresso. Nela, é possível conferir todos os símbolos (armas, habilidades passivas ou ativas) e verificar, detalhadamente, as funcionalidades e atributos que cada um fornece.

Agora, partindo para a run que ocorre em uma única tela de comandos — onde toda a magia do jogo acontece —, temos um bom panorama de como o título funciona. Ao iniciarmos uma peleja, podemos escolher inicialmente três símbolos (armas), sendo possível comprar até mais dois ao desbloquearmos slots para equipá-los durante as partidas.
Após a definição no turno do jogador e a escolha das armas de preferência, temos na parte inferior da tela o giro dos símbolos, através do comando “parar”, apertando o botão indicado por cinco vezes (contínuas ou não), damos início ao turno. Aqui, também podemos conferir antecipadamente atributos como a quantidade de vida e escudo, tanto nossos quanto dos oponentes, além da quantidade de ouro que temos para comprar habilidades futuras ao final de cada embate.
Uma vez escolhidos os símbolos, o combate se inicia. Dependendo da arma equipada, o ataque pode ser automático ou não, já que existem armas que demandam novos comandos por timing para determinar a eficácia das ações — como a inclusão de críticos e a recuperação fraca ou forte de cura e escudos. Terminando o turno do jogador, é iniciado o turno dos inimigos, que vão informar exatamente a quantidade de ataques e danos que desferirão.

As batalhas são um show à parte nesse jogo, pois são extremamente bem desenvolvidas, fluidas e com informações precisas como poucos títulos no mercado. A cada inimigo vencido, o HP é preenchido de forma integral e a possibilidade de nos fortificar comprando novas armas e habilidades é fornecida. Esse é, literalmente, o coração do jogo, pois cada escolha pode ser a linha tênue entre a derrota e a vitória, afinal, o comportamento dos inimigos dentro do próprio capítulo muda, exigindo que novas estratégias sejam adotadas, novos upgrades sejam selecionados e a atenção seja redobrada. Contudo, nada aqui acontece de forma injusta: o feedback visual e as informações são extremamente precisos, e a cada ciclo novas perspectivas e possibilidades são apresentadas.
Até onde pude apurar, Slots & Daggers foi desenvolvido de forma solo. O jogo foi criado no motor gráfico Unity e apresenta um visual muito bonito, polido e definido, cujas particularidades só agregam valor à obra. A direção de arte, bastante peculiar e quase toda monocromática, confere um charme único ao título. Sua pixel art é impecável e extremamente detalhada; nos momentos em que há cores, as paletas são muito bem escolhidas, trazendo identidade máxima a tudo o que é demonstrado em tela, conferindo traços únicos e muita personalidade ao título.
Falando sobre a qualidade auditiva do jogo, tudo aqui conversa muito bem com o jogador. Apesar de não haver diálogos falados, a trilha sonora e os efeitos sonoros dialogam perfeitamente com a proposta, entregando um feedback auditivo imprescindível. As melodias grudam como chiclete em nossa mente, fazendo com que, mesmo longe de uma partida, nos peguemos cantarolando os temas do jogo.

Slots & Daggers é o videogame em sua forma mais pura. A história, apesar de curta e sem muitas nuances, é bem-escrita e contribui positivamente para a atmosfera. A jogabilidade, que é o verdadeiro Santo Graal da obra, mostra-se extremamente prazerosa e inusitada; mesmo sendo punitiva, em momento algum torna-se maçante ou injusta, pois a sensação de recompensa se faz presente até mesmo na derrota.
Os gráficos possuem particularidades que podem não agradar a todos, mas os jogadores mais atentos notarão o valor e o capricho da produção, já que são bonitos em sua proposta e refinados — principalmente nos trechos onde o desenvolvedor aplica as cores. A trilha sonora embala toda a jogatina e, mesmo quem não é fã do estilo musical, pode se pegar cantarolando as canções; uma delas, em específico, é um verdadeiro “chiclete”.
Como pontos contra — que talvez limitem o valor final da obra —, destaco a curta duração e a pouca variedade no comportamento dos inimigos, pois eu, particularmente, gostaria de mais conteúdo. Contudo, o simples fato de não ser um título extremamente burocrático, como muitos jogos atuais (principalmente dentro do gênero roguelike), já o torna merecedor da minha total indicação, mesmo para quem não é adepto do estilo. Indo mais além, Slots & Daggers funciona como uma excelente porta de entrada para novos jogadores e, principalmente, para quem busca experiências inéditas e altamente inusitadas.
Slots & Daggers é uma grata e audaciosa surpresa que subverte as expectativas ao unir sorte e estratégia de forma impecável. Ao transformar o giro mecânico dos caça-níqueis em um sistema de combate por turnos dinâmico e justo, o título entrega um loop de jogabilidade brilhante e despido de qualquer burocracia. Embora sua curta duração e a repetitividade de alguns inimigos deixem um gostinho de “quero mais”, o primor de sua pixel art monocromática e a sua trilha sonora hipnótica compensam com folga o escopo conciso. É o videogame em seu estado mais puro, viciante e original. Uma recomendação obrigatória para quem busca frescor na atual indústria.
9
Jogo analisado com cópia gentilmente fornecida pela Future Friends Games Limited para PlayStation 5. Slots & Daggers está localizado em Português (Brasil) e também está disponível para Nintendo Switch, PC (Steam) e Xbox Series X|S.