OTXO – Análise

Washington "MeuGameB" DiasAnálises03/08/202690 Visualizações

Se violência frenética em estilo noir e a adrenalina de um bom roguelite são a sua praia, prepare o gatilho. OTXO chega como um herdeiro espiritual de Hotline Miami, envelopado na brutalidade cinematográfica de John Wick.

​O título convida o jogador a adentrar uma mansão mística e implacável em busca do seu grande amor. Com perspectiva top-down dinâmica, trilha sonora synthwave eletrizante e a mecânica de desaceleração do tempo (Focus), o jogo promete testar seus reflexos ao limite em salas geradas de forma procedural.

A premissa

​A jornada começa de forma enigmática durante uma viagem de metrô, onde acompanhamos o protagonista ao lado da namorada. No mesmo vagão, um homem corpulento se prepara para desembarcar, mas deixa cair uma máscara de forma intencional. Ao recolher e vestir o objeto por instinto, o herói é surpreendido por um clarão branco, despertando logo em seguida na praia de uma ilha misteriosa.

​Com esse pretexto, a trama engrena. Ao caminhar pelo local e alcançar uma suntuosa mansão, encontramos o primeiro NPC: o Barman. Ele nos acolhe de maneira sarcástica, debochando da nossa situação antes de ensinar as mecânicas básicas. É ele quem entrega a amarga realidade: é impossível fugir dali e, para resgatar sua amada, o protagonista precisará invadir o lugar e abrir caminho na bala.

​Entrando no ciclo tradicional dos roguelikes, toda vez que você é derrotado, renasce do zero na mesma praia, mantendo o aprendizado para ir mais longe na tentativa seguinte.

​O loop de Gameplay

​A jogabilidade é fortemente inspirada em Hotline Miami, mas adiciona um toque à Max Payne, permitindo desacelerar o tempo para obter vantagens táticas no combate — tudo sob uma visão superior (top-down). Ao entrar em cada sala, é preciso calcular rapidamente a estratégia, o posicionamento e o arsenal, atento às coberturas, alcance dos disparos e gestão de munição.

​Para a mobilidade, você conta com a rolagem de esquiva (que garante imunidade temporária a projéteis) e equipamentos secundários, como granadas e shurikens. Se a munição acabar, dá para recorrer ao combate corpo a corpo, desferindo chutes letais. Todo o ciclo de combate é extremamente dinâmico, visceral e recheado de gore.

​Para avançar, é obrigatório eliminar todos os inimigos da área. A cada conjunto de salas concluído, o jogador retorna ao salão principal (HUB), onde pode investir o dinheiro acumulado na run — valor que flutua de acordo com o desempenho no contador de combos. No bar, o Barman oferece drinques que concedem melhorias passivas e habilidades especiais (com a primeira bebida de cada tentativa sendo gratuita). Além dele, há uma Freira responsável por gerenciar a rotatividade do arsenal: através dela, dá para desbloquear, aumentar ou restringir a oferta de armas que surgirão durante a exploração.

​A curva de aprendizado e as camadas mecânicas se expandem a cada run. Ao final de cada bioma, você ganha acesso a uma sala de suprimentos com munição ilimitada para se preparar para o confronto contra o chefe local. Ao vencê-lo, avança-se para o próximo capítulo, liberando cenários, inimigos, equipamentos e elementos narrativos inéditos.

Simplicidade visual e riqueza sonora

​Na parte estética, a aposta é em gráficos simples e quase inteiramente monocromáticos, abrindo exceção apenas para o vermelho do sangue e da grande rosa no salão principal. Por conta da câmera top-down, esse estilo às vezes pode confundir a identificação de detalhes dos personagens. No entanto, apesar das limitações, a direção de arte entrega um nível de detalhamento surpreendente mesmo em preto e branco.

​Se o visual cumpre seu papel, a direção de áudio dá um show à parte e se consolida como o grande ponto alto da obra. O feedback sonoro é incrível: a sonoplastia mimetiza com maestria cada disparo e troca de pente. Esse trabalho ganha ainda mais relevância durante o bullet time, quando o som se abafa e se distorce de forma envolvente. Tudo isso é embalado por uma trilha darksynth visceral, com batidas pesadas que colocam o jogador em um verdadeiro estado de transe (flow). Sem dúvidas, a experiência auditiva é o destaque do título.

​Nada novo, mas feito com maestria

OTXO prefere não reinventar a roda. Em vez disso, pega fórmulas consagradas, joga na mistura e entrega uma experiência redondinha. Quem é fã de Hotline Miami vai se sentir em casa do primeiro ao último minuto. Para alguém como eu, que já estava saturado e cético em relação ao gênero rogue, a jornada foi revigorante.

​O jogo impressiona pelo desempenho polido e pela precisão com que conecta seus elementos. É a prova viva de que a magia dos indies continua se destacando perante a mesmice do mercado mainstream.

Sobre OTXO

OTXO é um jogo do gênero top-down shooter com elementos de ação roguelite, combinando tiroteios intensos, câmera lenta e uma marcante estética noir em pixel art. Idealizado e desenvolvido pelo desenvolvedor solo Nathan Haddock (sob o estúdio Lateralis Heavy Industries, de Dogworld e Manus Dei), o título é publicado pela Super Rare Originals. Foi lançado originalmente para PC (Steam) em 2023, chegando ao PlayStation 4, PlayStation 5 e Nintendo Switch em 2024.

Veredito

OTXO prova que não é preciso revolucionar o gênero para entregar algo memorável. Executando conceitos consagrados com perfeição, o título compensa a falta de inovação bruta com uma gameplay extremamente polida, ritmo ágil e um cuidado técnico exemplar. É um prato cheio para fãs de ação frenética..

Nota

9

Jogo analisado com cópia adquirida pelo redator para PlayStation 5. O título possui localização para Português, e está disponível também para PlayStation 4, Nintendo Switch e PC.

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