Kusan: City of Wolves – Análise

Washington "MeuGameB" DiasAnálises28/07/2026133 Visualizações

Kusan: City of Wolves é desenvolvido pelo estúdio sul-coreano CIRCLEfromDOT e publicado pela britânica PQube. Trata-se de um jogo de ação hardcore com visão de cima (top-down), bastante parecido com o clássico Hotline Miami, mas ambientado em um universo marcante com estética cyberpunk/noir. Nesta análise, trago minha experiência de mais de 13 horas de gameplay para entregar um panorama sincero sobre os pontos fortes, os deslizes do jogo e se a jornada realmente vale a pena.

​​A jornada em Kusan: City of Wolves inicia-se em uma atmosfera onírica. O protagonista, Jin, avança por uma escuridão densa, que se revela gradualmente à medida que um intenso bombardeio devasta o cenário. Guiado por rastros de sangue, o jogador testemunha um rastro de destruição repleto de corpos e sobreviventes implorando por socorro.

​Ao adentrar uma imponente megaestrutura em ruínas, Jin se depara com Wony, que lhe atira um colar com um pequeno porta-retrato. Sem tempo para reações, ela desfere um avassalador ataque psíquico, arremessando o protagonista. Durante essa projeção, uma sequência cinematográfica exibe vislumbres enigmáticos de vários personagens. Jin finalmente desperta do transe ao som intimidador de um brutamontes ameaçando um garoto.

Uma belíssima cena em estilo HQ se desenrola ao ritmo de uma trilha sonora marcante, perfeitamente contextualizada para ditar a atmosfera. Nela, vemos o garoto desesperado esmurrando a nossa porta fechada, gritando por socorro e implorando para salvarmos sua irmã, dizendo que “eles” a levaram. Nesse exato momento, o nosso bip apita. Lemos a mensagem e, em seguida, acendemos um cigarro. O texto informa que os restos mortais de Wony — a combatente AZ13 que sucumbiu e a “mulher” do sonho — ainda não haviam sido encontrados. A mensagem lamenta que, desde o cessar-fogo há cinco anos, as tensões entre o Norte e o Sul chegaram ao ápice e, por isso, as operações seriam suspensas por hora.

​Um novo som estrondoso vem do lado de fora. O brutamontes segue intimidando o garoto perto da nossa porta, reclamando que estava tentando dormir, mas que os berros do jovem o acordaram. Com o garoto ainda subjugado, o brutamontes acerta um soco em sua cabeça, dizendo que ele não é o único com problemas. O garoto retruca, avisando que sua irmã não foi a primeira e nem seria a última. Em uma tentativa de se desvencilhar, ele reage e desfere um tapa no agressor. O brutamontes decide que é hora de “ensinar bons modos” ao jovem, mas nós intervimos: chutamos a porta com toda a força contra o brutamontes e mandamos o garoto ficar de pé, pois iremos resgatar sua irmã.

Ao chegarmos ao local para onde a garota foi levada, dizemos a ele para esperar perto da motocicleta e não fazer barulho, pois dali em diante iremos sozinhos. Após o jovem espernear em uma tentativa inútil de nos convencer a levá-lo junto e acabar aceitando nossos termos, o jogo finalmente nos entrega o controle total. É aqui que a jogatina começa para valer, abrindo com um tutorial inicial para nos familiarizarmos com os comandos.

​A jogabilidade de Kusan: City of Wolves é simples na execução, mas gigante em possibilidades. Ela exige observação, estratégia, bom posicionamento e raciocínio rápido. Morremos com um único ataque inimigo — e, no início do jogo, também derrotamos os oponentes da mesma forma. Aqui, a regra é clara: podemos e devemos ser mais rápidos que eles, sabendo a hora certa de atacar, de se proteger e de usar as partes destrutíveis do cenário e os barris explosivos a nosso favor.

​Nossa arma principal é um punho mecânico multifuncional. Ele serve para socos básicos, ataques carregados e um super soco capaz de detonar itens e inimigos à distância, além de disparar uma faca arremessável. Para completar, temos armas de fogo como pistolas, revólveres e escopetas. Tanto o braço mecânico quanto o arsenal podem ser evoluídos com as moedas coletadas nas fases, mas com uma limitação: só podemos carregar uma arma de fogo por vez.

​O loop de gameplay é direto ao ponto: entramos em uma área e, para avançar, basta eliminar todos os inimigos. Ao final de cada etapa, recebemos uma nota de qualidade que nos pontua pela execução e maestria. A partir de certo capítulo, surge um item coletável que exige resolver um pequeno quebra-cabeça. Ele aumenta o espaço do inventário, nos permitindo usar mais habilidades e técnicas, além de diminuir o espaço ocupado por elas.

​Fechando as etapas de cada capítulo, encaramos as lutas contra os chefes. Elas exigem tudo e mais um pouco do que aprendemos até ali. As batalhas são super desafiadoras e cheias de camadas, continuamos morrendo com apenas um golpe, enquanto o chefe precisa de vários para cair.

​Tudo isso acontece em cenários muito bem construídos e ao som de uma trilha sonora impactante. Aliás, a ambientação contextualiza super bem cada etapa da jogabilidade, com divisões bem definidas que ajudam a guiar a ação caótica e frenética do jogo.

Kusan: City of Wolves foi desenvolvido na Unity. O jogo é extremamente bonito, com uma pixel art linda e detalhada, além de iluminação e efeitos muito bem aplicados. Tudo tem uma nitidez incrível, mesmo com as limitações de perspectiva que os jogos top-down costumam ter.

​O desempenho é extremamente satisfatório. O carregamento após a morte é quase instantâneo e, mesmo nos momentos com muitos objetos na tela, ele mantém a taxa de quadros por segundo super estável, sem nenhuma queda aparente.

​A direção de arte é muito boa. O conceito “Selvapunk” do jogo traz personagens e inimigos bem detalhados e definidos. A paleta de cores saturadas é muito bem equilibrada, criando uma imersão única ao mesmo tempo em que é marcante e impactante — exatamente como o jogo precisa ser, até nos momentos mais frenéticos. Isso entrega um ótimo feedback visual, perfeitamente acompanhado por uma trilha sonora memorável.

No que tange à dimensão sonora de Kusan, a trilha musical se estabelece como um dos elementos mais marcantes e bem executados do título. Ela mimetiza com excelência a dinâmica das cenas, evocando com precisão a atmosfera e contextualizando cada momento da narrativa. A composição destaca-se por suas variações pontuais, combinando riffs secos de guitarra a vertentes de blues, jazz e hip-hop. Essa fusão estilística resulta em faixas memoráveis que se sobressaem no conjunto da obra.

​Em contrapartida, a sonoplastia apresenta um trabalho honesto e cumpre adequadamente o seu papel, entregando efeitos e ruídos alinhados à proposta e ao escopo do jogo, ainda que sem grandes destaques

Considerações Finais

​Lembro-me como se fosse hoje do meu primeiro contato com Hotline Miami: uma experiência visceral, hipnotizante e inesquecível. O quarto encardido, os telefonemas enigmáticos, as três figuras mascaradas e o rastro indescritível de sangue deixado ao fim de cada fase — tudo isso embalado por uma trilha e um design de som impecáveis.

​Experimentei o Hotline pela primeira vez no finado PS Vita e, mais tarde, o revivi no PlayStation 4 por várias vezes. Lembro de tentar transmitir a um amigo em especial o quão única tinha sido aquela jornada. Anos depois, ao jogar The Last of Us Part II e me deparar com a personagem asiática completamente imersa jogando-o num PS Vita, precisei salvar aquele trecho da gameplay. Fui tomado, de novo, por um êxtase inexplicável.

Mas por que resgatar Hotline Miami para falar de Kusan: City of Wolves? ​A resposta é simples: Kusan é abertamente um “HM-like” em sua estrutura básica e na dinâmica frenética de combate. No entanto, o título passa longe de ser uma mera cópia, sustentando uma identidade própria bastante marcante.

​Diferente de sua inspiração, Kusan entrega uma narrativa mais direta, mas que nem por isso deixa de ser cheia de camadas. O jogo se destaca ao trazer:

  • Lutas contra chefes mais variadas: encontros que exigem estratégia e adaptabilidade do jogador.
  • Diversidade na jogabilidade: momentos que prestam uma excelente homenagem aos clássicos beat ’em ups da era 8-bits.
  • Sutil cultura pop: uma baita referência ao icônico Hotel Continental da franquia John Wick.

​Kusan: City of Wolves não chega a ser revolucionário. Sua duração é honesta, embora menor que a do jogo que o inspirou, e o seu loop de combate — apesar das variações — é um pouco mais contido e menos inspirado. Isso não estraga a experiência final, mas deixa uma leve sensação de “quero mais”.

​O título também abdica de itens colecionáveis e vai direto ao ponto. Esteticamente, os gráficos são excelentes, bonitos e muito harmoniosos com a proposta, embora pequem pela falta de variação nos cenários.

​Um dos grandes destaques fica para as HQs que contam a história: são belíssimas (e mereciam um galeria dedicada no menu principal). Os diálogos são afiados, e o elenco — de aliados a vilões — é extremamente marcante. Para fechar com chave de ouro, a cena pós-créditos deixa indícios claros de que ainda há muito chão a ser percorrido nesse universo.

Veredito

Kusan: City of Wolves acerta muito mais do que erra. É uma pedida indispensável para quem curte jogos de ação hardcore, violentos e caóticos. Fica evidente que uma continuação ou uma DLC agregaria demais a essa promissora franquia — e desde já, fico na torcida para que aconteça.

Nota

8.5

Jogo analisado com cópia gentilmente fornecida pela PQube para PlayStation 5. O título está localizado em Português (Brasil), e também será lançado para Xbox Series X|S, Nintendo Switch e PC (Steam) em 30 de julho.

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