
Existem jogos que colocam você atrás do volante para fazer você correr o mais rápido possível como Need for Speed, disputar corridas ou simplesmente explorar um mundo aberto como Forza.
Keep Driving pega essa ideia e faz praticamente o contrário. Aqui dirigir não significa controlar diretamente o carro em uma estrada, mas sim decidir para onde você vai, quais caminhos pretende seguir, quem vai entrar no seu carro e, principalmente, como você vai lidar com tudo aquilo que aparece durante a viagem.
Desenvolvido pela YCJY Games, Keep Driving é um RPG de gerenciamento que mistura elementos de aventura, estratégia, gerenciamento de recursos e combate por turnos para transformar uma simples viagem de carro em uma experiência muito mais pessoal. O jogo foi lançado originalmente para PC em 6 de fevereiro de 2025, com publicação da própria YCJY Games em parceria com a Kepler Ghost.
A história se passa no início dos anos 2000, colocando você no controle de um jovem que acabou de comprar seu primeiro carro e decide atravessar o país para chegar a um festival de música.
Durante a viagem, você poderá dar carona para diferentes pessoas, realizar trabalhos extremamente exaustivos para conseguir dinheiro, parar em postos, lojas e oficinas, melhorar seu carro, administrar combustível, energia e dinheiro, enfrentar diferentes situações na estrada e tomar decisões que podem alterar completamente o rumo daquela viagem.
E talvez seja justamente essa a maior qualidade de Keep Driving, ele entende que uma viagem não é interessante apenas porque você chegou ao destino. O que torna uma viagem memorável são as pessoas que te acompanham no caminho, as coisas inesperadas que acontecem, as músicas que você escolhe no rádio, as decisões tomadas no meio do percurso e até aqueles momentos em que você simplesmente está olhando pela janela pensando na vida. E sinto que isso é algo unânime entre todo mundo que jogou.

Uma viagem que começa simples
Keep Driving é um jogo indie onde você está na pele de um jovem recém-habilitado, cujo desejo é cruzar o país para ir a um festival, enquanto aproveita as diversidades do caminho.
E claro que essa jornada não poderia ser solitária. Ao decorrer do jogo, vão aparecer várias pessoas pedindo carona enquanto você segue seu caminho, coisa que eu achei muito legal, pois não são passageiros super genéricos. Cada um tem sua personalidade, seu jeito de enxergar o mundo e também são de diferentes idades e profissões.
O mais interessante é que, essas pessoas não servem apenas como personagens que aparecem para contar uma história e depois desaparecem. Elas também fazem parte da sua estratégia no RPG.
Cada passageiro possui habilidades e características próprias, podendo ajudar durante os desafios da estrada, enquanto alguns também possuem suas próprias histórias e objetivos. Conforme você passa mais tempo com determinadas pessoas, novas possibilidades podem surgir, fazendo com que aquela carona que inicialmente parecia apenas uma maneira de conseguir uma habilidade nova acabe se tornando parte importante da sua viagem. E foi justamente isso que me fez gostar tanto dos passageiros.
Você começa pegando carona com alguém porque aquilo pode ser útil para a sua build e, quando percebe, já está querendo descobrir o que vai acontecer com aquela pessoa, e qual rumo ela vai tomar.

A HUD que transforma o carro no seu menu
Uma das primeiras coisas que chama atenção é a própria HUD.
Logo no começo, o jogo já apresenta o layout básico de uma maneira extremamente intuitiva. Você tem “CAR”, que representa a durabilidade do seu carro, “ENERGY”, que representa o vigor do seu personagem e indica se ele está cansado ou não, os STATUS, o K amarelo, que representa o dinheiro do jogo, o “GAS”, que mostra a quantidade de combustível disponível, além dos pedais do carro e do porta-luvas. E apesar de serem várias informações, tudo fica muito bem organizado.
A HUD do game é super intuitiva e fácil de entender. Caso você não tenha pegado alguma explicação de algo ou deixado passar, é só colocar o mouse em cima que mostra uma explicação do que você está apontando no computador de bordo. E quando está em batalha, essas informações aparecem na parte do retrovisor do carro.
O que, sinceramente, acho muito criativo, pois não colocam uma caixa de texto flutuante gigante “estragando” a ambientação do game. O próprio carro se transforma na interface. É uma decisão pequena, mas que mostra bastante cuidado com a apresentação do jogo.

Pegando a estrada com uma boa trilha sonora
Incrementando toda essa jornada, é claro que você tem um rádio no seu carro, o que deixa a viagem extremamente mais rica e divertida, com músicas realmente boas, onde você pode ir comprando CDs para ir montando sua playlist perfeita.
E isso combina perfeitamente com a proposta.
Você passa uma boa parte do jogo planejando rotas, olhando o mapa, administrando recursos e enfrentando situações completamente inesperadas. Ter uma boa música tocando enquanto você faz tudo isso deixa a viagem muito mais agradável.
A trilha sonora acabou sendo um dos pontos mais elogiados nas avaliações do jogo. O que claro, é de se esperar, tem alguma coisa mais importante do que uma boa musica enquanto se dirige por longa horas?
O rádio não parece existir apenas porque “todo jogo de carro precisa ter música”. Ele faz parte da própria identidade de Keep Driving.

Um RPG dentro do porta-luvas
O jogo conta com várias mecânicas de RPG, onde você monta sua build para abranger o máximo de adversidades possíveis que você pode encontrar na estrada.
Ao decorrer da sua jornada, você vai desbloqueando “árvores de habilidade”, onde você escolhe com o que vai gastar seus pontos e se aquela habilidade faz sentido para a sua build.
Uma coisa que acrescenta MUITO a esse sistema de RPG é que ele não se limita somente a essa árvore de habilidades e cartinhas, e sim você pode expandir isso para aprimoramentos do seu carro, o que impacta diretamente no combate do jogo, podendo influenciar na quantidade de escudos, mudar o tipo de ataque, aumentar a durabilidade do carro e por aí vai.
E é aqui que Keep Driving consegue ser mais interessante do que parece inicialmente. Você não está simplesmente dirigindo até um festival. Você está constantemente tentando descobrir como tornar aquela viagem mais eficiente.
Quanto dinheiro eu tenho? Quanto combustível ainda me resta?
Vai dar pra chegar até o próximo post? Vale a pena pegar esse caminho?
Esse passageiro é de confiança? Será que eu consigo enfrentar esse próximo evento?
Será que essa habilidade combina com a minha build? Será que vale a pena colocar determinada pessoa no carro?
Essas decisões vão se acumulando durante a viagem e fazem com que cada campanha tenha suas próprias particularidades.

Quando um pneu furado vira uma batalha
Talvez uma das ideias mais diferentes de Keep Driving esteja justamente na maneira como ele transforma problemas comuns de uma viagem em combates por turnos.
Você não está enfrentando um exército de monstros ou algum chefe gigantesco. O “inimigo” pode ser um problema no carro, uma situação inesperada na estrada, condições ruins do caminho ou algum outro acontecimento que coloque seus recursos em risco. É uma ideia extremamente simples, mas que combina muito com o conceito do jogo.
Em vez de transformar a viagem em um RPG tradicional, Keep Driving pega os problemas que poderiam acontecer durante uma viagem e transforma cada um deles em uma espécie de desafio estratégico.
Só que aqui existe um ponto que acho importante mencionar.
Apesar de a ideia ser muito criativa, esse é justamente um dos aspectos em que o jogo pode acabar ficando repetitivo. Algumas avaliações também apontaram que o loop dos encontros e do combate perde um pouco da força depois que você já entende suas soluções.
No meu caso, isso não chegou a estragar a experiência, mas é algo que precisa ser levado em consideração.

Refletindo enquanto dirige
Enquanto você pega a estrada, vai ter vários momentos de reflexão em que seu personagem está pensando sobre algo, e você tem que escolher se concorda com tal pensamento ou algum contraponto.
O que é muito legal, pois ficar reflexivo enquanto se dirige por mais de 1.000 km é totalmente compreensível, mas eu acho que esse sistema poderia ser mais impactante ainda se as consequências de certas escolhas fossem mais duras.
A reflexão aqui não é só pensamento e etc. Ela te dá atributos ou pode te dar debuffs, e creio que, se as punições e os buffs fossem mais abrangentes, seria ainda mais impactante o peso das suas escolhas. É um sistema que funciona e combina muito com a proposta de uma viagem longa, mas eu queria sentir um pouco mais o peso dessas decisões.
Se determinada escolha pudesse mudar de maneira mais significativa uma parte da minha jornada, acredito que esses momentos de reflexão seriam ainda mais marcantes.

O caminho importa mais do que o destino
Uma coisa que Keep Driving entende muito bem é que a viagem não precisa ser sobre chegar rapidamente ao destino.
O jogo possui diferentes caminhos, eventos, passageiros e situações que podem fazer com que duas viagens completamente diferentes tenham resultados completamente diferentes.
Você pode escolher uma rota mais segura ou arriscar um caminho diferente. Pode gastar seu dinheiro melhorando o carro ou guardá-lo para uma emergência. Pode pegar uma pessoa que parece interessante ou escolher alguém simplesmente porque aquela habilidade combina melhor com sua build. E essas pequenas decisões são justamente o que fazem a viagem parecer sua.
Isso também explica por que o jogo consegue funcionar tão bem mesmo tendo uma história relativamente simples.

Vários caminhos, vários finais
Keep Driving conta com vários caminhos que você pode escolher, tendo assim múltiplos finais.
Então, ao mesmo tempo que ele pode durar facilmente 3 horas, com o fator rejogabilidade, ele pode durar 20/30 horas ou até mais ainda. Então, se você quiser entrar de cabeça no jogo, consegue facilmente. E esse é outro ponto que me agradou bastante.
Você termina uma viagem e fica pensando em como seria se tivesse escolhido outra rota, outro passageiro ou outra decisão. Certamente vou continuar jogando para tentar pegar outros finais, até porque não gostei do final que peguei.
O sistema de múltiplos finais funciona justamente porque o jogo não tenta obrigar você a fazer tudo em uma única campanha. Você pode simplesmente aproveitar aquela viagem e seguir em frente, ou pode voltar para descobrir o que teria acontecido se tivesse feito tudo diferente.

Uma experiência que sabe exatamente o que quer ser
Keep Driving não tenta ser um simulador de direção.
Não tenta ser um RPG gigantesco.
Também não tenta transformar uma viagem simples em uma aventura épica onde você precisa salvar o mundo.
E talvez seja justamente por isso que ele funciona.
Ele quer contar uma história sobre uma viagem.
Sobre um jovem entrando em uma nova fase da vida.
Sobre pessoas que aparecem durante o caminho e talvez nunca mais sejam vistas.
Sobre ouvir música dentro do carro enquanto você cruza quilômetros de estrada.
Sobre parar em algum lugar porque apareceu uma oportunidade inesperada.
E sobre entender que, algumas vezes, o mais importante de uma viagem é justamente tudo aquilo que acontece antes de chegar ao destino.

Considerações finais
Keep Driving foi uma surpresa muito boa para mim. Eu gostei bastante da forma como o jogo transforma uma simples viagem de carro em uma experiência de RPG, principalmente pela variedade de personagens que aparecem durante a jornada, pela trilha sonora e pelas possibilidades de montar minha própria build.
A HUD também foi algo que me surpreendeu, principalmente pela criatividade de conseguir apresentar praticamente todas as informações utilizando o próprio carro, sem precisar ficar jogando caixas de texto gigantes na tela.
O sistema de RPG funciona muito bem, as melhorias do carro realmente fazem diferença e os passageiros conseguem deixar cada viagem mais interessante.
O único ponto em que eu gostaria de ter visto mais é nas reflexões e nas consequências das escolhas. Acho que algumas decisões poderiam ter um impacto maior para fazer com que o jogador realmente sentisse o peso daquilo que escolheu.
Também existe uma certa repetição nos desafios da estrada depois que você já entende bem o funcionamento do sistema, algo que outras reviews também apontaram. Mas, para mim, isso acabou ficando em segundo plano diante de tudo que o jogo consegue fazer de interessante.
No final, Keep Driving conseguiu exatamente aquilo que eu acho que um bom indie precisa conseguir fazer: pegar uma ideia que parece simples e transformar em alguma coisa que você não estava esperando.
Esse jogo certamente vale pelo valor que está sendo cobrado e pela quantidade de conteúdo bom que o jogo tem, junto do fator rejogabilidade, que é muito bom. A temática é muito interessante, mas sei que não vai agradar todo mundo.
Keep Driving é uma experiência que transforma uma simples viagem de carro em uma aventura cheia de escolhas, música, com personagens e situações inesperadas, até engraçadas. O combate e alguns eventos podem acabar ficando repetitivos, e determinadas escolhas poderiam ter consequências mais pesadas. No conjunto, o jogo consegue entregar uma experiência extremamente agradável e diferente do que estamos acostumados a encontrar. E o maior mérito do título, é justamente fazer você esquecer que está jogando um jogo sobre chegar a um festival. Você começa querendo chegar ao destino e termina querendo descobrir o que existe no próximo caminho. Se você gosta de RPGs diferentes, experiências de gerenciamento ou simplesmente quer pegar a estrada sem saber exatamente onde vai parar, Keep Driving é uma viagem que vale a pena fazer
8
Jogo analisado com cópia fornecida gentilmente pela YCJY Games para PC (Steam). O título possui localização em português e também está disponível PlayStation 5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch.