
Duskfade é um jogo de ação, aventura e plataforma 3D desenvolvido pelo estúdio espanhol Weird Beluga Studio e publicado pela britânica Fireshine Games. O título chega como uma verdadeira carta de amor aos clássicos dos anos 2000, buscando inspiração direta em franquias consagradas da era PlayStation 2, como Kingdom Hearts, Jak and Daxter e Ratchet & Clank.
Com mais de 20 horas de gameplay, concluí 100% da campanha principal e já estou no caminho para conquistar a tão desejada platina. Nesta análise, compartilho minhas impressões detalhadas sobre essa jornada: saiba onde o título brilha com excelência, onde ele desliza e, no fim das contas, se realmente vale o seu tempo e investimento.
Quebrando as Correntes do Tempo
A trama de Duskfade se inicia com o protagonista Zirian diante do laboratório de sua irmã, Aliria. Com a porta trancada há dias, o garoto tenta chamá-la, mas é surpreendido por uma mega explosão que vai pelos ares. A única lembrança que resta são as últimas palavras de Aliria ecoando pelo ar: “Só falta mais um pouquinho…”.
Após o evento catalisador, Zirian desperta em um local misterioso: a imponente Torre do Relógio. O verdadeiro ponto de partida da aventura acontece ao ouvir o pedido de socorro de Cuco, um pássaro mecânico inventado por sua irmã. Ao encontrar o pequeno aliado encurralado por monstros, Zirian empunha a Minuteira — uma lâmina com formato de ponteiro de relógio que pertenceu ao seu avô, Triatan, o Relojoeiro, e que altera sua forma durante os combos. Com Cuco resgatado e agora como seu fiel companheiro, a dupla inicia a subida da estrutura, convicta de que Aliria está presa no local.

A ascensão pela torre exige precisão em desafios de plataforma e maestria em combates intensos. No entanto, ao atingir o topo e confrontar um chefe implacável, Zirian é arremessado do ápice rumo ao desconhecido.
Dias depois, o jovem acorda na cama de uma hospedaria na Cidade Ponteiro. Logo descobre que só sobreviveu à queda graças ao empenho de Cuco, que amorteceu o impacto e evitou o pior. Após conversar com um dos habitantes locais — os simpáticos Nuvenosos, criaturas feitas de nuvem que se mudaram para a região após um incidente misterioso — o jogador assume novamente o controle de Zirian.
Ao sair da hospedaria, revela-se um panorama impressionante: a Torre do Relógio surge imersa em trevas e acorrentada por elos gigantescos. Segundo os moradores, a estrutura apareceu do nada logo após a explosão do laboratório. Na praça central, um artefato vinculado a uma das correntes mantém a cidade sob uma noite eterna.
Guiado por Cuco e munido da Minuteira, Zirian ataca o artefato na praça até destruí-lo, partindo a primeira corrente. Embora a porta da torre continue trancada, o pássaro mecânico sugere a solução: localizar e quebrar as demais correntes espalhadas pelo mundo. A partir deste momento, a jornada começa para valer, levando o jogador para a primeira área de exploração fora da Cidade Ponteiro e expandindo o panorama da jogabilidade.

Inspiração nos clássicos com personalidade própria
O primeiro cenário fora da cidade que exploramos é o Monte Cinéreo, uma região florestal mesclada a um ambiente vulcânico. É aqui que somos apresentados ao loop de gameplay que estrutura toda a jornada.
Ao nosso lado está Cuco, companheiro que nos dá suporte em combate até o fim da aventura. A jogabilidade remete aos clássicos de ação e plataforma 3D do PS2, permitindo andar, correr, saltar e esquivar com rolamentos. A movimentação traz dinamismo, incluindo o salto triplo nativo (dois pulos convencionais seguidos de um mergulho para alcançar distâncias maiores). O combate utiliza a Espada Minuteira, que muda de forma durante as sequências de golpes.
A navegação ocorre por áreas interconectadas com trechos de plataforma — que se movem e funcionam como armadilhas temporizadas na maior parte do tempo — e encontros de combate espalhados pelo mapa. Essas lutas formam arenas fechadas que só se desabilitam assim que derrotamos todos os inimigos. As recompensas variam conforme a localização e a dificuldade do confronto, organizadas em baús coloridos:

A progressão adota elementos de backtracking. O mapa apresenta barreiras que só podem ser ultrapassadas após a aquisição de habilidades atreladas ao avanço da história, exigindo revisitar áreas anteriores para explorar o cenário por completo.
A exploração também se conecta à narrativa dos NPCs. Coletáveis específicos podem ser trocados por itens cosméticos e por uma coleção de cartas assim que localizamos e interagimos com os respectivos personagens na Cidade Ponteiro.
O fluxo do jogo é consistente do início ao fim:
Ainda sobre a exploração, espalhados pelo mundo estão os Ecos do Passado, que aprofundam a história deste universo e integram a lista de coletáveis, podendo ser revisitados no menu a qualquer momento. A interface centraliza o progresso com facilidade: exibe a missão ativa, o inventário de itens e a evolução da Minuteira, além de habilidades, dispositivos e passivas do Cuco. Tudo funciona de forma simples e intuitiva, acompanhado por uma HUD limpa e bem definida que nos mantém informados sobre todos os parâmetros da gameplay.

Polimento invejável para o escopo do título
No que tange à parte técnica, Duskfade foi desenvolvido na Unreal Engine 5 e apresenta um trabalho bastante coeso. A direção de arte é caprichada, com paletas de cores saturadas e cenários muito vivos. As cenas são ótimas e o jogo roda de forma consistente na maior parte do tempo, apresentando apenas ocasionais quedas na taxa de quadros e tendo fechado sozinho uma única vez durante toda a minha jogatina de mais de 20 horas. O título conta com partículas e efeitos práticos de qualidade, que elevam o nível da produção, além de uma iluminação satisfatória e um ótimo trabalho no quesito draw distance (distância de renderização).
Um trabalho afinado que faz toda a diferença
A parte auditiva de Duskfade é impressionante, tanto pela qualidade das músicas quanto pela dublagem — que, apesar de ser limitada às cenas, entrega atuações competentes. Os ruídos e resmungos nas partes não dubladas não incomodam e se justificam pelo fato de o jogo ser um projeto de menor escopo e preço acessível. Na parte da sonoplastia, que abrange a movimentação dos personagens, os sons dos inimigos e os efeitos gerados no combate e na exploração, o resultado é satisfatório e em nada prejudica a experiência final.

Uma carta de amor direcionada que, em uma eventual sequência, merece mais investimento para alcançar novos horizontes.
Duskfade é verdadeiramente uma carta de amor com endereço certo ao coração dos fãs de ação, aventura e plataforma 3D, sendo uma excelente opção para qualquer dispositivo capaz de executá-lo. O jogo foi claramente desenvolvido com muito carinho, e o trabalho realizado pela pequena equipe sediada em Madri, na Espanha, é notável. As suas inspirações foram muito bem implementadas, e o resultado final — aliado ao custo acessível para o consumidor — torna-o um título indispensável para os entusiastas do gênero e bastante convidativo para quem deseja experimentar algo novo.
Apesar de ter uma premissa simples, a narrativa é bem construída e contada, encerrando-se no tempo certo e com diálogos que conduzem de forma coerente à sua conclusão. No quesito jogabilidade, o título entrega uma boa experiência, embora apresente alguns deslizes. Essas falhas são amenizadas à medida que progredimos, mas, em dificuldades mais elevadas, podem incomodar e tornar os confrontos um pouco injustos. O sistema de travamento de câmera (lock on) não funciona perfeitamente, escondendo diversos inimigos quando há combates simultâneos. Por outro lado, optar por não travar a câmera pode deixar o combate levemente repetitivo e cansativo — um detalhe estrutural que, ao meu ver, dificilmente será corrigido apenas com atualizações.
Para não deixar um gosto amargo, o jogo compensa essas limitações com um ótimo level design, excelente sensação de precisão nos elementos de plataforma (que parecem ser o verdadeiro foco do título), belos gráficos e uma trilha sonora memorável, acompanhada por uma sonoplastia bastante satisfatória.

Sendo este apenas o segundo projeto do estúdio, espero que seja o primeiro de muitos. Em suma, Duskfade acerta muito mais do que erra. Seus deslizes são pontuais e, com um pouco mais de experiência e orçamento em futuras produções, o céu é o limite. Se você tem dúvidas sobre investir seu tempo e dinheiro, pode ir sem medo: vale muito a pena, desde que se tenha em mente que se trata de um projeto independente feito com extrema dedicação e amor pelo gênero.
Duskfade é uma excelente e nostálgica homenagem aos clássicos de plataforma 3D do PlayStation 2, combinando carisma, level design e um polimento técnico impressionante para um projeto indie. As seções de plataforma são bem executadas, direção de arte é vibrante, aproveitando-se da Unreal Engine 5 para criar um visual marcante, trilha sonora memorável, ciclo de exploração e combate, embora simples, permanecem cativantes e oferecem um ótimo custo-benefício. Pequenos deslizes, como a imprecisão do sistema de travamento de câmera em combates e breves quedas pontuais de desempenho chegam a incomodar, mas não chegam a comprometer a experiência diante dos inúmeros acertos do título.
8.5
Jogo analisado com cópia gentilmente fornecida pela Weird Beluga para PlayStation 5. O título está localizado em Português (Brasil), e também está disponível para Nintendo Switch 2, Xbox Series X|S e PC (Steam).