Atomfall – Análise

Washington "MeuGameB" DiasAnálises15/04/2026278 Visualizações

Atomfall é um título que une elementos de ação, exploração e sobrevivência, ambientado em uma versão alternativa do norte da Inglaterra, cinco anos após o desastre nuclear de Windscale. Embora busque inspiração temática nos clássicos CRPGs isométricos Fallout 1 (1997) e Fallout 2 (1998), o jogo distancia-se dessas raízes ao adotar uma perspectiva de primeira pessoa. O desenvolvimento e a publicação ficam a cargo da britânica Rebellion Games, estúdio com mais de 33 anos de trajetória e responsável pela aclamada série de tiro tático Sniper Elite.

​Diferente da linearidade característica de Sniper Elite, Atomfall aposta em um mundo aberto repleto de possibilidades e em uma narrativa marcada por nuances. Disponível desde março de 2025 para PC, PlayStation 4, PlayStation 5 e Xbox Series X|S, o jogo já recebeu expansões que não serão abordadas nesta análise.

A trama inicia-se com o despertar do protagonista em um bunker abandonado, onde atende ao pedido de socorro de um cientista ferido. Este solicita suprimentos para improvisar um curativo — uma interação que introduz o tutorial de sobrevivência de forma orgânica. Em troca, o cientista entrega um cartão de acesso e, antes da partida, orienta que busquemos a “Convergência”, um ponto onde supostamente encontraremos auxílio, embora advirta que nada será concedido gratuitamente.

Ao explorar as dependências, deparo-me com portas bloqueadas pela ausência de energia. Para superar tais obstáculos, utilizamos frestas e nos esgueiramos conforme necessário. Adiante, localizamos o corpo da Doutora Power, acompanhado de um bilhete de despedida que revela informações cruciais.

​Ao deixarmos o bunker, encontramos uma cabine telefônica. O aparelho toca e uma voz enigmática profere: “Oberon deve morrer”. O momento instaura a dúvida sobre a existência de um interlocutor real ou se trata apenas de uma gravação espectral.

​Após consultarmos o mapa, identificamos nossa localização: o Vale Slatten. Por opção, segui em direção ao leste. Durante a exploração, localizamos um helicóptero acidentado onde recebemos um aviso hostil para recuar. Priorizando a cautela, utilizamos da furtividade — abordagem mais segura para um personagem ainda desarmado — para neutralizar a ameaça. Próximo a uma cachoeira, encontramos o corpo da piloto portando um bilhete datado de 2 de março de 1962, com instruções de emergência que proibiam o abandono da aeronave e a aproximação de instalações científicas. Em outra localidade, um segundo cadáver continha coordenadas para um galpão ferroviário e uma chave para suprimentos ocultos, direcionando nosso progresso.

A narrativa consolida-se através da exploração meticulosa, da coleta de evidências e da gestão de recursos. A interação com personagens de motivações ambíguas molda a experiência, e o enredo é diretamente influenciado por escolhas que definem o tom dos diálogos entre a diplomacia e a hostilidade. O desenvolvimento é gradual, exigindo que o jogador utilize o intelecto durante os interrogatórios para desvendar segredos e tomar decisões estratégicas.

Embora não existam sistemas de moralidade explícitos, cada resposta pode alterar profundamente o curso dos eventos, resultando, inclusive, na morte de NPCs. Tais consequências impactam não apenas a narrativa e seus múltiplos finais, mas também a progressão e a obtenção de itens exclusivos.

​Em suma, a premissa de Atomfall reflete as graves consequências da negligência humana. O incidente em uma usina nuclear desencadeou uma rede de mentiras e corrupção governamental. Com a região sob isolamento, o jogador deve navegar em um ambiente onde a confiança é escassa e até os moradores locais possuem agendas ocultas que podem colidir com os seus interesses.

A jogabilidade revela-se, à primeira vista, direta, contudo, desdobra camadas de complexidade que emergem gradualmente. Como uma obra que funde ação, sobrevivência e mundo aberto, o título entrega uma exploração extremamente competente, conferindo um notável grau de liberdade.

​O mapa, denso e estruturado de forma orgânica, interconecta ambientes internos e externos com fluidez. Os pontos de interesse revelam-se conforme avançamos — seja por pistas no cenário, indicações de NPCs ou pela curiosidade em desbravar o desconhecido. Uma vez descobertos, tais locais são registrados e frequentemente protegidos por ameaças. É neste ponto que o jogo brilha: o combate oferece ampla liberdade tática, permitindo que o jogador adote a sutileza da furtividade, a agressividade de armas de fogo ou uma mescla estratégica de ambas.

​Além da campanha, a exploração é recompensada por um sistema de investigação que revela segredos, missões secundárias envolventes e colecionáveis. A sobrevivência é intensificada pela gestão constante de recursos e inventário, transformando cada incursão em um genuíno teste de planejamento.

O sistema de crafting (criação) complementa essa dinâmica: mediante receitas, é possível criar consumíveis, artefatos arremessáveis e aprimoramentos para o arsenal. Paralelamente, uma versátil árvore de habilidades permite evoluir atributos de combate e sobrevivência. O progresso depende da exploração e da conclusão de missões — as quais, vale notar, podem ser perdidas dependendo da forma como interagimos com os personagens.

​Em suma, a jogabilidade não apresenta inovações disruptivas, mas a forma como conduz a narrativa e estabelece suas exigências torna a experiência gratificante. O sistema de diálogos é refinado, permitindo que o jogador permaneça imerso, visto que as escolhas geram consequências imediatas e a longo prazo. Se a exploração e o combate parecem truncados no início, eles ganham profundidade à medida que dominamos as mecânicas, tornando a progressão recompensadora para os curiosos.

No que diz respeito aos gráficos, Atomfall apresenta um visual atraente, com boa variedade de ambientes e riqueza de detalhes. Os efeitos práticos são competentes, e a modelagem dos inimigos é satisfatória, assim como a sincronia labial e a movimentação. A direção de arte é sólida, trazendo uma paleta de cores vivas que, embora cause estranheza inicial nas áreas introdutórias devido à temática de isolamento, mantém a beleza plástica.

​O título utiliza a engine proprietária Asura, a mesma de Sniper Elite. Esse fator garante uma execução suave, excelente resolução e pouquíssimos bugs visíveis. Quando comparado a outros motores do mercado, o jogo pode parecer, em alguns aspectos, datado, contudo, essa característica é compreensível, dado o escopo do projeto e o orçamento adequado à estrutura da desenvolvedora.

A parte auditiva é imprescindível para fomentar a atmosfera. As dublagens (o jogo não conta com dublagem em português, somente localização) são excelentes, e os sons ambientes são competentes, assim como o impacto dos disparos, explosões e o ruído da movimentação. Tudo é muito bem posicionado, facilitando a identificação de perigos e fornecendo uma constante sensação de urgência. Em áreas de confinamento, essa imersão é elevada, instigando o jogador a manter a atenção total aos sons ao redor.

​Desde os primeiros trailers, Atomfall despertou minha atenção. Como fã do gênero, desejei vivenciar a experiência desde o lançamento, embora tenha mantido uma dose de ceticismo, dado que a Rebellion Games é conhecida por títulos de estrutura linear.

​Essa desconfiança dissipou-se logo nas primeiras horas. Atomfall impõe-se como um colosso assim que abrimos a primeira porta para uma nova área, sua forma de apresentar a história — intrinsecamente ligada à exploração — cativa instantaneamente. O jogo é imenso, imersivo e complexo, mantendo, ao mesmo tempo, uma progressão acessível.

​Porém, nem tudo são flores: Atomfall possui contras e defeitos, como a pouca variedade de inimigos e uma inteligência artificial pouco apurada — que, em partes, chega a ser injusta e, por vezes, limitada. Um outro aspecto que senti falta, e que não chega a ser um defeito estrutural, mas que gostaria que o jogo tivesse, é um sistema dinâmico de ciclo de dia e noite, além de variações climáticas, como chuva e tempo nublado. No mapa aberto, o jogo permanece ensolarado o tempo todo, independentemente de quanto tempo você jogue.

Veredito

Atomfall ​é a prova de que a Rebellion Games não apenas sabe transitar fora de sua zona de conforto, como domina o terreno. O jogo não tenta reinventar a roda dos RPGs de sobrevivência, mas a refina com uma precisão cirúrgica, unindo o peso narrativo das escolhas do jogador a um design de mundo que premia a curiosidade acima de tudo. É uma obra que exige paciência para florescer, mas que entrega uma experiência densa, madura e, sobretudo, memorável. Um triunfo que merece figurar entre os melhores do ano.

Nota

9

Jogo analisado com cópia adquirida pelo redator para PlayStation 5.

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