Realm of Ink – Análise

Washington "MeuGameB" DiasAnálises01/06/20261 Visualizações

Realm of Ink é um roguelite de ação que faz algo genuinamente genial: utiliza a própria estrutura de repetição das runs — a maior marca registrada do gênero — como engrenagem central para construir uma narrativa rica em metalinguagem, fortemente inspirada na mitologia chinesa e na filosofia budista e Wuxing. Desenvolvido pela Leap Studio e publicado pela 4Divinity, o título se provou uma grata surpresa ao longo de uma experiência robusta e aprofundada.

​A nossa jornada começa ao lado de Red, uma caçadora de demônios obstinada e mestra na arte da espada. Inicialmente, seu único objetivo é caçar a lendária Demônia Raposa, criatura responsável pela destruição completa de sua vila natal. Guiada por uma voz misteriosa e ecoante em sua mente, Red avança por cenários desolados, dilacerando inimigos em uma busca cega por vingança. No entanto, após enfrentar perigos brutais e inevitavelmente tombar no campo de batalha, ela não encontra o descanso eterno da morte.

​Em vez do esquecimento, a protagonista acorda em uma estalagem misteriosa e acolhedora, cuidada por uma entidade enigmática conhecida como Lady Ching. É nesse momento que o verdadeiro choque de realidade e o peso existencialista da obra se revelam: Red descobre que não possui livre-arbítrio. Ela, os inimigos que enfrenta e o mundo ao seu redor são meros personagens fictícios, eternamente presos e pintados nas páginas de um livro de contos. Esse universo fascinante é o Reino da Tinta (Realm of Ink), um lugar onde todas as vidas, tragédias e passos são predeterminados pelo Espírito do Livro — uma entidade superior que manipula as linhas narrativas e condena seus habitantes a um ciclo eterno de sofrimento, morte e renascimento, justificando perfeitamente o loop de jogabilidade.

​Quando a ficha finalmente cai e Red percebe que é apenas um amontoado de tinta em um pedaço de papel controlado pela caneta do autor, ela decide se rebelar. O foco da trama muda drasticamente: sai a vingança cega e entra uma belíssima luta filosófica pela liberdade. Para quebrar as correntes do destino escrito, a protagonista precisa atravessar biomas procedurais belíssimos e perigosos, como florestas budistas ancestrais, reinos congelados e ruínas de mausoléus, cada um protegido por um Guardião imponente, também preso ao seu próprio roteiro trágico.

A cada retorno forçado à Estalagem da Raposa após a morte, a história ganha novas e fascinantes camadas. Red passa a interagir com outros NPCs despertos que decidiram viver sob seus próprios termos nos refúgios do livro. Através desses diálogos dinâmicos, desvendamos o passado melancólico dos chefes e o folclore sombrio daquele mundo. Nessa jornada de insurreição, ela conta com o auxílio fundamental de Momo, seu mascote de tinta senciente que atua como extensão de sua própria determinação. Além disso, ao coletar relíquias e o sangue de raposa, Red gradualmente desbloqueia memórias e formas espirituais jogáveis, expandindo tanto a narrativa quanto o escopo do combate.

​A jogabilidade flui com maestria sobre os pilares consolidados dos grandes expoentes do mercado atual. Na Estalagem da Raposa, o jogador gerencia progressões permanentes cruciais (Meta Progression). No andar térreo, alimentamos e evoluímos Momo para desbloquear novas aparências e transformações elementais. No segundo andar, temos acesso à robusta árvore de habilidades “Estela dos Destinos”, onde investimos recursos coletados em combate em três ramificações distintas: Vermelho (força e dano bruto), Verde (agilidade e mobilidade) e Amarelo (economia e recursos). Adicionalmente, outra NPC permite a customização e o desbloqueio de novas classes com moedas exclusivas, alterando drasticamente o moveset, o visual de Red e suas armas. O combate em si se move através de um balé ágil de ataques fracos contínuos, finalizadores pesados e esquivas milimétricas, exigindo do jogador uma leitura rápida de tela.

​Ao adentrar o campo de batalha, o ritmo torna-se frenético e altamente estratégico. Logo na primeira sala de cada bioma, o jogo recebe três recursos aleatórios fundamentais para moldar a build daquela tentativa: as Vantagens (Perks), que dão bônus passivos e pequenas punições dependendo da raridade, o Conjunto de Habilidades da classe escolhida, e as preciosas Relíquias de Tinta (Ink Gems), que são baseadas em elementos como Fogo, Terra, Água, Raio e Veneno, e tais gemas podem ser equipadas em até dois slots e mudam completamente a forma física e os poderes de Momo em combate.

​A progressão pelas salas permite escolher rotas com diferentes níveis de risco e recompensa, incluindo salas de Desafio intenso para sobrevivência ou defesa de totens que garantem espólios raros. A reciclagem de gemas repetidas permite evoluir os poderes ativos de Momo até alcançarmos os comércios que antecedem os chefes. Contudo, nem tudo é perfeito nesta jornada literária.

Durante sessões de jogabilidade intensa, especialmente quando a tela fica sobrecarregada de inimigos e efeitos visuais, o jogo apresenta quedas notáveis de desempenho e pequenos travamentos. O momento crítico ocorre na troca de relíquias de tinta no menu, onde o título engasga a ponto de passar a incomodar, dando a impressão de que vai travar de forma definitiva. Outro ponto que demanda atenção é o balanceamento: a escalada de dificuldade entre as salas é imensa e, por mais que o fator sorte influencie o drop de itens, certas barreiras parecem punitivas demais sem necessidade. Como em todo roguelite, o ciclo repetitivo pode cansar após longas horas de dedicação contínua.

Por outro lado, o trabalho visual realizado pela Leap Studio é de um charme arrebatador. A direção de arte brilha com gráficos desenhados à mão e pintados em estilo Nanquim, criando o efeito visual belíssimo de que a tinta fresca está em constante movimento na tela. O design dos personagens traz uma estética oriental marcante, com figuras femininas de curvas acentuadas e proporções vistosas que contrastam artisticamente com criaturas grotescas saídas diretamente do folclore de Yokais. Tudo esbanja nitidez, saturação e uma fluidez de animação soberba nos combates. A sonoplastia acompanha esse padrão com uma trilha minimalista harmoniosa e efeitos de impacto satisfatórios, embora a dublagem soe um tanto caricata para os padrões atuais da indústria — um detalhe que, se não eleva a obra, tampouco estraga a experiência. Dependendo da dificuldade escolhida e das suas ações, o game oferece múltiplos desfechos, guardando o verdadeiro final apenas para quem dominar por completo a metalinguagem de sua história.

Veredito

Realm of Ink triunfa ao fundir de forma brilhante sua narrativa existencialista com as mecânicas inerentes ao gênero roguelite. Com uma direção de arte em Nanquim deslumbrante, combate ágil e uma progressão profunda que instiga o jogador a continuar tentando, o título supera com folga seus pequenos problemas de otimização e picos de dificuldade. Trata-se de uma jornada poética e violenta sobre reescrever o próprio destino, tornando-se uma recomendação indispensável tanto para veteranos do gênero quanto para novos jogadores que buscam uma experiência envolvente e visualmente fascinante.

Nota

8.5

Jogo analisado com cópia gentilmente fornecida pela 4Divinity para PlayStation 5. O título está localizado em Português (Brasil), e também está disponível para Xbox Series X|S, Nintendo Switch e PC (Steam).

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