Mortal Shell II: brutalidade, peso e redenção

Pedro AlvesAnálises20/08/202694 Visualizações

Em 2020, o estúdio independente Cold Symmetry surpreendeu a comunidade de RPGs de ação ao lançar o Mortal Shell. Distribuído pela Playstack, o título não tentava apenas replicar a fórmula e características da FromSoftware, mas trazia uma cadência própria baseada na petrificação (hardening) e possessão de corpos de guerreiros caídos. Seis anos depois, a franquia retorna com Mortal Shell II, uma sequência ambiciosa que busca não apenas expandir o escopo do universo e gameplay, mas transformar radicalmente a dinâmica do seu combate e proporcionar mais satisfação aos jogadores.

Tivemos acesso antecipado ao título por meio da Devout Edition — que concede três dias de acesso prévio ao lançamento global — e testamos a experiência tanto em um PC potente com uma RTX 5080 quanto no formato portátil com o ROG Xbox Ally. O objetivo desta análise é responder se o novo título da Playstack consegue manter a identidade pesada do combate da franquia enquanto adota um ritmo mais agressivo e atualizado.

O clamor da Mãe Umbral e as memórias da decadência

A narrativa de Mortal Shell II coloca-nos na pele do Harbinger, a única criatura nascida do último ovo sobrevivente de Undermetha, a Mãe Umbral. Sua missão é tão brutal e melancólica quanto o próprio cenário: cruzar um mundo em ruínas, dominado por fanáticos religiosos e horrores grotescos, para resgatar as ovas sagradas roubadas e libertar a sua criadora.

  • O Protagonista e o Mundo: O Harbinger segue o arquétipo clássico do protagonista silencioso dos souls-likes, servindo como uma tela em branco para o jogador ter a liberdade de imaginá-lo como a si próprio. O verdadeiro carisma narrativo reside nas Shells (as cascas dos guerreiros caídos) e nos habitantes de Marrow Keep, o santuário central onde mercadores e outros NPCs interagem com o jogador.
  • Construção de Mundo e Lore: A história se desenrola organicamente através de documentos espalhados que trazem maior profundidade ao mundo, arquitetura decadente e environmental storytelling. A primeira cutscene após o tutorial estabelece com maestria o peso monumental da jornada, acompanhada por uma introdução impactante sob chuva torrencial ao som de metal melódico.
  • Memórias Vivas: O grande mérito da narrativa está no sistema de memórias. Ao desbloquear as lembranças do passado de cada Shell em posse, o jogador compreende suas motivações, personalidade, aflições e tragédias, integrando a progressão
    mecânica ao aprofundamento emocional do universo.

Ataques pesados e agressividade recompensada

A maior revolução de Mortal Shell II com relação a outros jogos do gênero souls-like está na remoção da barra de estamina. Em vez de recuar para esperar uma barra verde se regenerar, o jogo introduz um medidor alimentado exclusivamente por ataques corporais (melee). Golpear inimigos preenche essa barra, gerando cargas para a arma de longo alcance (disparada no gatilho esquerdo) ou permitindo a ativação das habilidades exclusivas de cada Shell. Ser agressivo no Mortal Shell II é recompensador e abre um leque de novos combos durante a gameplay.

O Ciclo do Harbinger: Quando a vida da sua Shell chega a zero, você é ejetado em sua forma original de Harbinger. Mais frágil e com barra de vida menor, porém mantendo o mesmo poder similar, você precisa acertar golpes para preencher 100% do medidor e invocar novamente sua armadura. Essa mecânica transforma momentos de quase derrota em um combate cheio de adrenalina e emoção.

  • Peso e Cadência de Ataque: Os golpes são lentos, pesados e exigem timing cirúrgico. Não é um jogo baseado em esquivas ritmadas no estilo Black Myth: Wukong, mas sim uma dança tática onde cada ataque e esquiva exige compromisso com a animação e ritmo do combate. O sistema de parry oferece um retorno auditivo metálico gratificante, especialmente com habilidades focadas como as de Eredrim.
  • Exploração e Beacons: Os mapas são divididos em regiões que utilizam fragmentos cartográficos para guiar o jogador durante a exploração e abre-se no estilo Elden Ring ao ser revelado, com a progressão atrelada à coleta de Gloom (a essência deixada por inimigos) para upgrade do Harbinger nos Beacons.
  • Acessibilidade e Desafio: Para quem busca uma curva de dificuldade mais atenuada, o jogo oferece o Slayer Seal logo após o tutorial. Ele concede um dano massivo de atordoamento (stagger) em ataques carregados e mais stagger ao utilizar a arma ranged, embora desative as conquistas do save como contrapartida.
  • Problemas de Balanceamento e Câmera:
  • Inimigos comuns em certas zonas chegam em enxames e possuem mais dificuldade combinada que os próprios chefes das áreas, tornando algumas travessias desnecessariamente arrastadas e lentas.
    • A distância excessiva entre alguns Beacons acentua a frustração de morrer para grupos de inimigos básicos.
    • Em corredores escuros e estreitos, a câmera falha ao afastar o ângulo do modelo do protagonista, travando a visão em uma perspectiva quase de primeira pessoa que desorienta o combate e faz com que inimigos tenham janelas de oportunidade com muitos golpes.
    • A animação de cura ocasionalmente exige múltiplos comandos para responder durante a batalha, o que pode ser um tanto frustrante.

Esplendor sombrio, trilha sonora avassaladora e os tropeços da Unreal Engine 5

Visualmente, Mortal Shell II é um espetáculo grotesco de horror medieval sombrio que remete diretamente à direção de arte de títulos como Dark Souls III e Lords of the Fallen (2023). O uso de Ray Tracing confere dramaticidade às catedrais, cidades decadentes e pântanos nevoentos, criando uma atmosfera opressora e imersiva, onde cada som é percebido com atenção.

  • Direção Sonora: A trilha sonora é um dos pontos mais altos do título. A inclusão de faixas de melodic black metal durante tempestades e batalhas de chefes eleva a tensão do combate e da exploração, combinada com um sound design que fornece avisos acústicos claros para golpes que não são possíveis de desviar.
  • Desempenho no PC High-End: Em nossa máquina de testes (Ryzen 9 5900X + RTX 5080), o jogo rodou confortavelmente acima dos 100 FPS em qualidade máxima, Ray Tracing ativo com DLSS em modo Qualidade e Multi Frame Generation ativado.
  • Performance no ROG Xbox Ally: No portátil, o jogo surpreendeu com médias acima de 70 FPS em 1080p, utilizando FSR em modo Qualidade e geração de quadros, demonstrando excelente escalabilidade., classificando-se como um dos títulos de Unreal Engine 5 mais bem otimizados para o portátil.
  • Ressalvas Técnicas e Otimização:
    • Engasgos e Travamentos: Foram observados traversal stutters típicos da Unreal Engine 5 e congelamentos breves de até 1 segundo durante a transição de biomas, além de compilação de shaders no primeiro carregamento.
    • Instabilidade de Software: O jogo sofreu com diversos crashes durante horas de gameplay, sobretudo ao sair de Marrow Keep ou recarregar áreas, além de alguns bugs visuais envolvendo o alaúde do bardo que impactou a jogabilidade.
    • Ausência de HDR Nativo: O jogo não conta com suporte oficial a HDR no lançamento, exigindo o uso de mods da comunidade (como o RenoDX HDR Unreal Extended) no PC para alcançar o contraste e picos de brilho ideais em telas OLED e MiniLED.

Veredito

Mortal Shell II consolida e demonstra a maturidade da Cold Symmetry no gênero souls-like. Ao descartar a tradicional barra de estamina em favor de uma gestão agressiva de habilidades e ataques ranged intercambiáveis, o estúdio entrega um combate de peso tátil ímpar, engrandecido por uma direção de arte deslumbrante e uma trilha sonora memorável. Embora tropece em instabilidades técnicas da Unreal Engine 5, bugs de câmera e um desbalanceamento pontual na densidade de inimigos comuns, suas qualidades superam os defeitos e o posicionam como uma parada obrigatória para os entusiastas de RPGs de ação desafiadores.

Nota

8

Jogo analisado com cópia fornecida pela Playstack para PC (Steam). O título possui localização para Português, e está disponível também para PlaStation 5 e Xbox Series X|S.

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