
Luna Abyss é um jogo de ação e tiro em primeira pessoa que combina elementos de Bullet Hell e plataforma. Lançado em 21 de maio de 2026, o game foi desenvolvido ao longo de sete anos pelo estúdio independente britânico Kwalee Labs e publicado pela Kwalee LTD.
O prelúdio de Luna Abyss mostra a jornada de Fawkes, uma prisioneira enviada a uma colônia penal cravada nas entranhas de Luna, uma lua artificial e distorcida. Sob essa premissa opressiva, o jogador desperta na pele de um detento sentenciado a explorar uma megaestrutura brutalista em ruínas que se estende pelas profundezas do satélite. A missão principal consiste em descer pelo “Abismo” para recuperar tecnologias esquecidas e resgatar vestígios de Greymont, uma colônia perdida e consumida pelo esquecimento. Durante toda a incursão por esse labirinto industrial e cavernoso, cada passo da protagonista é monitorado de perto por Aylin, uma inteligência artificial vigilante que atua como guarda prisional. A partir daí, Fawkes se vê encurralada entre o cumprimento de sua pena e os mistérios de uma profecia enigmática, enquanto ecos e sussurros de um horror cósmico começam a ecoar pelas ruínas sombrias.
A narrativa se desdobra por meio de figuras de aparência bizarra que, na realidade, são consciências humanas transferidas para corpos artificiais (o Bastião), projetados sob medida para a sobrevivência e o trabalho forçado. Através de diálogos diretos, comunicações telepáticas fragmentadas e diários espalhados pelo cenário, o jogador gradativamente desvenda as nuances e motivações de cada sobrevivente. Essas perspectivas, embora partam do mesmo confinamento, contrastam drasticamente: enquanto alguns sonham com a vida além da lua e outros se conformam com a própria miséria, há aqueles que buscam a liberdade a qualquer custo ou alimentam um desejo latente de vingança contra o regime absolutista do autointitulado “Pai de Todos”.

Conforme o jogador descende rumo ao coração do abismo para cumprir as diretrizes impostas por Aylin, o contador da pena diminui. Em paralelo, o Level Design vertical do jogo impõe um ciclo constante de descidas tortuosas e subidas claustrofóbicas pela megaestrutura, descortinando as várias camadas de um universo impregnado de horror. É sob essa atmosfera de constante tensão que começamos a compreender o que de fato arruinou aquele lugar — e o real peso de nossa presença nesse ecossistema agonizante.
Os marcantes olhos vermelhos de Fawkes, considerados uma maldição na Terra, são vistos na Lua de Sangue como uma característica única e de extremo valor. No entanto, o satélite não oferece um verdadeiro refúgio: ali, a protagonista também é tratada como propriedade do governo — uma arma a ser usada a qualquer custo para fins escusos —, o que não difere muito de sua antiga vida na Terra. Os segredos que o jogo revela ao longo da exploração montam, peça por peça, um complexo quebra-cabeça narrativo. De forma progressiva e cadenciada, essa revelação caminha em perfeita sinergia com o desenvolvimento da própria gameplay, tornando a experiência de jogo tão profunda quanto a sua história.
Se há uma certeza que emerge da experiência com Luna Abyss, é que tanto a sua narrativa quanto a sua jogabilidade subvertem as impressões iniciais — e isso de forma absolutamente positiva. Fragmentos de diálogos soltos, proferidos por personagens e NPCs, carregam um peso dramático muito maior do que aparentam, uma densidade que se estende organicamente ao gameplay. Cada nova habilidade adquirida, upgrade desbloqueado ou setor desbravado transforma a dinâmica da experiência. O universo do jogo, desolado e enigmático à primeira vista, revela-se complexo e repleto de nuances, instigando o jogador a desvendar seus segredos mais profundos.

Concluí a campanha de Luna Abyss em cerca de 20 horas, com momentos de pura diversão e de uma gratificante imersão. O título pode não revolucionar a fórmula dos jogos de ação, mas cumpre com maestria o que se propõe a entregar na maior parte do tempo, salvo pontuais ressalvas de ritmo.
Neste título com level design estritamente focado em plataformas verticais e horizontais, aliado a combates acelerados e de atmosfera claustrofóbica, descobrimos que saltar em direção ao desconhecido é mais do que uma ousadia: é uma necessidade mecânica. A sensação que inicialmente evoca adrenalina e, por vezes, um leve desconforto vertiginoso, integra a própria alma do gameplay.
Operando na perspectiva de primeira pessoa (FPS), o título estabelece comandos básicos de movimentação e tiro desde os primeiros minutos. Contudo, conforme avançamos e as ameaças escalam, a jogabilidade molda-se para responder aos novos desafios. Confrontamos hordas em um ritmo frenético, como os ataques inimigos manifestam-se em padrões complexos de bullet hell (remetendo imediatamente à intensidade de Returnal), o jogador é constantemente desafiado a coreografar esquivas, saltos e contra-ataques precisos. Para fazer frente a essa “chuva de projéteis”, o arsenal à disposição demonstra-se cirúrgico e extremamente satisfatório.
É nítida a sensação de que Luna Abyss reverencia grandes pilares da indústria, costurando suas influências de forma perceptível. A mobilidade ágil do protagonista, o sistema de trava de mira (lock-on) e a cadência da arma de plasma evocam imediatamente o DNA de Metroid Prime. Por sua vez, as mecânicas de saltos de longa distância em direção ao abismo e os propulsores de velocidade trazem à memória o brilhantismo físico de Portal 2. Por fim, a opressão da ambientação carcerária, sob a vigilância constante de uma Inteligência Artificial condutora e repressiva, dialoga diretamente com o clima de isolamento e paranoia do clássico System Shock.

Longe de se tornar uma colcha de retalhos genérica, essas familiaridades jogam a favor da obra. Ao absorver o que há de melhor em seus referenciais, Luna Abyss consegue moldar uma assinatura própria. Essa identidade singular ancora-se, prioritariamente, na constante e verticalizada descida ao abismo, sustentada por um loop de jogabilidade que, embora simples em sua premissa, entrega uma execução imensamente recompensadora.
Falando um pouco sobre o loop de gameplay: após aceitarmos os pré-requisitos das missões, somos teletransportados para um determinado ponto. A partir dali, lidamos com um quebra-cabeça ambiental a fim de liberar a passagem que nos permitirá explorar a nova área.
Dentro dessa nova zona, enfrentamos sequências de plataformas apoiadas por uma nova habilidade, além de novos upgrades que aumentam os pontos de vida e melhorias de armas, a depender da exploração e da curiosidade do jogador. Toda vez que terminamos uma seção de plataforma, caímos em uma arena onde se desencadeia um combate que, geralmente, apresenta um novo tipo de inimigo.
Essa mescla se mantém rápida até o final da área, culminando na luta contra o chefe local. Posterior ao embate, vem a recompensa e o objetivo principal da missão, que consiste na coleta de itens e na eliminação de um determinado alvo. Esse loop se repetirá até o final do jogo, mas, é claro, a introdução de novas habilidades, armas e o aumento das exigências impostas pelo level design proporcionam experiências novas e intensas.

O loop de gameplay me agrada, principalmente pelos novos cenários que são apresentados e introduzidos de forma orgânica, e por conta das exigências trazidas pelas habilidades oferecidas. No entanto, ao falarmos em novos cenários, exploração e combates, tocamos no que talvez seja a parte menos memorável da obra. Luna Abyss foi desenvolvido no motor gráfico Unreal Engine 4 que, como já é de conhecimento do público, é capaz de entregar visuais deslumbrantes — como visto no lindíssimo Atomic Heart e em vários outros jogos da geração passada, que em alguns casos são jogos de maior escopo no motor quando comparados a este título.
O problema do jogo está nas texturas de baixa qualidade, muitas vezes fica perceptível a falta de nitidez e o carregamento tardio de objetos 3D no cenário (o famoso texture pop-in). Além disso, alguns inimigos apresentam camadas de pele lisas e sem detalhes, somadas a uma baixa distância de renderização (draw distance). E isso não é o pior: o jogo apresenta telas de carregamento o tempo todo, mesmo quando o jogador tem a sensação de que o cenário já está ali e perfeitamente construído, o que quebra a promessa de transições fluidas da atual geração.
Em contrapartida a tudo isso, temos uma boa direção de arte no que diz respeito aos ambientes e à arte 2D de todos os personagens. Tirando as telas de carregamento incômodas, o jogo roda de forma estável na maior parte do tempo, mantendo a taxa de quadros por segundo (FPS) concisa e sem grandes quedas, embora o screen tearing (quebra de tela) seja constante.

E como nenhuma tempestade dura para sempre, somos novamente surpreendidos por uma excelente trilha sonora, uma sonoplastia satisfatória e uma dublagem de qualidade incontestável.
A música tema da tela de menu de Luna Abyss é incrível, de tão impactante, fui buscá-la no YouTube e cheguei a compartilhá-la com amigos. E essa é apenas uma das demais composições da obra, que são muito bem contextualizadas e harmonizam perfeitamente com a proposta do jogo. A sonoplastia cumpre bem o seu papel, tanto nos ruídos provocados pela movimentação do personagem quanto pelos grunhidos emitidos pelos inimigos e sons de disparos. São efeitos condizentes com a ambientação, porém não elevam a experiência a um novo patamar, sendo apenas satisfatórios.
O mesmo, no entanto, não se aplica à dublagem, que está em outro nível. Todos os atores entregam um trabalho excepcional, com falas bem entoadas que se tornam prazerosas e gratificantes de ouvir, dando o ritmo correto de urgência quando exigido ou um tom mais informal quando necessário. Os grandes destaques ficam por conta de Fawkes, Aylin e o “Pai de Todos”.

Em minhas considerações finais sobre Luna Abyss, um sentimento é concreto: eu gostei muito do todo que compõe a obra desenvolvida pela Kwalee Labs. Claramente percebemos o carinho com que o título foi desenvolvido, a começar pela boa história contada e pelo desenvolvimento dos personagens primários e secundários que, por mais que os encontros com eles sejam breves e esporádicos, merecem a nossa atenção.
Na parte que condiz à jogabilidade, o jogo é sólido, apresentando um bom level design e combates — principalmente contra chefes — interessantes e intensos, trazendo um pacote de equilíbrio ideal nesse quesito. Já a parte técnica se mostra uma faca de dois gumes: enquanto a direção de arte brilha em vários aspectos, os gráficos, a falta de polimento e os problemas técnicos tiram um pouco da imersão. No entanto, esse fator é compreensível dado o escopo do projeto.
O contraponto perfeito surge no brilhantismo da trilha sonora (OST), que esbanja qualidade, assim como a dublagem. Esta última é acompanhada por uma sonoplastia mais contida e modesta, mas que cumpre muito bem o seu papel. Pretendo jogar mais em uma nova dificuldade para buscar os 100% (e a platina), aprofundando-me ainda mais nesse universo repleto de nuances e segredos que guardam o Abyss.
Luna Abyss é uma grata surpresa para os amantes de ação, plataforma e ficção científica opressiva. Embora tropece na parte técnica e gráfica — evidenciando as limitações de escopo de uma produção independente na Unreal Engine 4 —, o título compensa suas falhas com um loop de jogabilidade extremamente satisfatório, combates intensos em estilo bullet hell e uma direção de arte inspirada. Impulsionado por uma trilha sonora memorável e uma dublagem impecável. É uma jornada vertical claustrofóbica e recompensadora que, apesar das arestas a serem aparadas, demonstra a paixão e o potencial de seus desenvolvedores. Vale muito a pena conhecer.
8.5
Jogo analisado com cópia gentilmente fornecida pela Kwalee LTD para PlayStation 5. O título está localizado em Português (Brasil), e também está disponível para Xbox Series X|S e PC (Steam).