Luna Abyss – Análise

Washington "MeuGameB" DiasAnálises29/05/20268 Visualizações

​Luna Abyss é um jogo de ação e tiro em primeira pessoa que combina elementos de Bullet Hell e plataforma. Lançado em 21 de maio de 2026, o game foi desenvolvido ao longo de sete anos pelo estúdio independente britânico Kwalee Labs e publicado pela Kwalee LTD.

​O prelúdio de Luna Abyss mostra a jornada de Fawkes, uma prisioneira enviada a uma colônia penal cravada nas entranhas de Luna, uma lua artificial e distorcida. Sob essa premissa opressiva, o jogador desperta na pele de um detento sentenciado a explorar uma megaestrutura brutalista em ruínas que se estende pelas profundezas do satélite. A missão principal consiste em descer pelo “Abismo” para recuperar tecnologias esquecidas e resgatar vestígios de Greymont, uma colônia perdida e consumida pelo esquecimento. Durante toda a incursão por esse labirinto industrial e cavernoso, cada passo da protagonista é monitorado de perto por Aylin, uma inteligência artificial vigilante que atua como guarda prisional. A partir daí, Fawkes se vê encurralada entre o cumprimento de sua pena e os mistérios de uma profecia enigmática, enquanto ecos e sussurros de um horror cósmico começam a ecoar pelas ruínas sombrias.

A narrativa se desdobra por meio de figuras de aparência bizarra que, na realidade, são consciências humanas transferidas para corpos artificiais (o Bastião), projetados sob medida para a sobrevivência e o trabalho forçado. Através de diálogos diretos, comunicações telepáticas fragmentadas e diários espalhados pelo cenário, o jogador gradativamente desvenda as nuances e motivações de cada sobrevivente. Essas perspectivas, embora partam do mesmo confinamento, contrastam drasticamente: enquanto alguns sonham com a vida além da lua e outros se conformam com a própria miséria, há aqueles que buscam a liberdade a qualquer custo ou alimentam um desejo latente de vingança contra o regime absolutista do autointitulado “Pai de Todos”.

Conforme o jogador descende rumo ao coração do abismo para cumprir as diretrizes impostas por Aylin, o contador da pena diminui. Em paralelo, o Level Design vertical do jogo impõe um ciclo constante de descidas tortuosas e subidas claustrofóbicas pela megaestrutura, descortinando as várias camadas de um universo impregnado de horror. É sob essa atmosfera de constante tensão que começamos a compreender o que de fato arruinou aquele lugar — e o real peso de nossa presença nesse ecossistema agonizante.

Os marcantes olhos vermelhos de Fawkes, considerados uma maldição na Terra, são vistos na Lua de Sangue como uma característica única e de extremo valor. No entanto, o satélite não oferece um verdadeiro refúgio: ali, a protagonista também é tratada como propriedade do governo — uma arma a ser usada a qualquer custo para fins escusos —, o que não difere muito de sua antiga vida na Terra. Os segredos que o jogo revela ao longo da exploração montam, peça por peça, um complexo quebra-cabeça narrativo. De forma progressiva e cadenciada, essa revelação caminha em perfeita sinergia com o desenvolvimento da própria gameplay, tornando a experiência de jogo tão profunda quanto a sua história.

Se há uma certeza que emerge da experiência com Luna Abyss, é que tanto a sua narrativa quanto a sua jogabilidade subvertem as impressões iniciais — e isso de forma absolutamente positiva. Fragmentos de diálogos soltos, proferidos por personagens e NPCs, carregam um peso dramático muito maior do que aparentam, uma densidade que se estende organicamente ao gameplay. Cada nova habilidade adquirida, upgrade desbloqueado ou setor desbravado transforma a dinâmica da experiência. O universo do jogo, desolado e enigmático à primeira vista, revela-se complexo e repleto de nuances, instigando o jogador a desvendar seus segredos mais profundos.

​Concluí a campanha de Luna Abyss em cerca de 20 horas, com momentos de pura diversão e de uma gratificante imersão. O título pode não revolucionar a fórmula dos jogos de ação, mas cumpre com maestria o que se propõe a entregar na maior parte do tempo, salvo pontuais ressalvas de ritmo.

​Neste título com level design estritamente focado em plataformas verticais e horizontais, aliado a combates acelerados e de atmosfera claustrofóbica, descobrimos que saltar em direção ao desconhecido é mais do que uma ousadia: é uma necessidade mecânica. A sensação que inicialmente evoca adrenalina e, por vezes, um leve desconforto vertiginoso, integra a própria alma do gameplay.

​Operando na perspectiva de primeira pessoa (FPS), o título estabelece comandos básicos de movimentação e tiro desde os primeiros minutos. Contudo, conforme avançamos e as ameaças escalam, a jogabilidade molda-se para responder aos novos desafios. Confrontamos hordas em um ritmo frenético, como os ataques inimigos manifestam-se em padrões complexos de bullet hell (remetendo imediatamente à intensidade de Returnal), o jogador é constantemente desafiado a coreografar esquivas, saltos e contra-ataques precisos. Para fazer frente a essa “chuva de projéteis”, o arsenal à disposição demonstra-se cirúrgico e extremamente satisfatório.

​É nítida a sensação de que Luna Abyss reverencia grandes pilares da indústria, costurando suas influências de forma perceptível. A mobilidade ágil do protagonista, o sistema de trava de mira (lock-on) e a cadência da arma de plasma evocam imediatamente o DNA de Metroid Prime. Por sua vez, as mecânicas de saltos de longa distância em direção ao abismo e os propulsores de velocidade trazem à memória o brilhantismo físico de Portal 2. Por fim, a opressão da ambientação carcerária, sob a vigilância constante de uma Inteligência Artificial condutora e repressiva, dialoga diretamente com o clima de isolamento e paranoia do clássico System Shock.

​Longe de se tornar uma colcha de retalhos genérica, essas familiaridades jogam a favor da obra. Ao absorver o que há de melhor em seus referenciais, Luna Abyss consegue moldar uma assinatura própria. Essa identidade singular ancora-se, prioritariamente, na constante e verticalizada descida ao abismo, sustentada por um loop de jogabilidade que, embora simples em sua premissa, entrega uma execução imensamente recompensadora.

​Falando um pouco sobre o loop de gameplay: após aceitarmos os pré-requisitos das missões, somos teletransportados para um determinado ponto. A partir dali, lidamos com um quebra-cabeça ambiental a fim de liberar a passagem que nos permitirá explorar a nova área.

​Dentro dessa nova zona, enfrentamos sequências de plataformas apoiadas por uma nova habilidade, além de novos upgrades que aumentam os pontos de vida e melhorias de armas, a depender da exploração e da curiosidade do jogador. Toda vez que terminamos uma seção de plataforma, caímos em uma arena onde se desencadeia um combate que, geralmente, apresenta um novo tipo de inimigo.

​Essa mescla se mantém rápida até o final da área, culminando na luta contra o chefe local. Posterior ao embate, vem a recompensa e o objetivo principal da missão, que consiste na coleta de itens e na eliminação de um determinado alvo. Esse loop se repetirá até o final do jogo, mas, é claro, a introdução de novas habilidades, armas e o aumento das exigências impostas pelo level design proporcionam experiências novas e intensas.

​O loop de gameplay me agrada, principalmente pelos novos cenários que são apresentados e introduzidos de forma orgânica, e por conta das exigências trazidas pelas habilidades oferecidas. No entanto, ao falarmos em novos cenários, exploração e combates, tocamos no que talvez seja a parte menos memorável da obra. Luna Abyss foi desenvolvido no motor gráfico Unreal Engine 4 que, como já é de conhecimento do público, é capaz de entregar visuais deslumbrantes — como visto no lindíssimo Atomic Heart e em vários outros jogos da geração passada, que em alguns casos são jogos de maior escopo no motor quando comparados a este título.

​O problema do jogo está nas texturas de baixa qualidade, muitas vezes fica perceptível a falta de nitidez e o carregamento tardio de objetos 3D no cenário (o famoso texture pop-in). Além disso, alguns inimigos apresentam camadas de pele lisas e sem detalhes, somadas a uma baixa distância de renderização (draw distance). E isso não é o pior: o jogo apresenta telas de carregamento o tempo todo, mesmo quando o jogador tem a sensação de que o cenário já está ali e perfeitamente construído, o que quebra a promessa de transições fluidas da atual geração.

​Em contrapartida a tudo isso, temos uma boa direção de arte no que diz respeito aos ambientes e à arte 2D de todos os personagens. Tirando as telas de carregamento incômodas, o jogo roda de forma estável na maior parte do tempo, mantendo a taxa de quadros por segundo (FPS) concisa e sem grandes quedas, embora o screen tearing (quebra de tela) seja constante.

E como nenhuma tempestade dura para sempre, somos novamente surpreendidos por uma excelente trilha sonora, uma sonoplastia satisfatória e uma dublagem de qualidade incontestável.

​A música tema da tela de menu de Luna Abyss é incrível, de tão impactante, fui buscá-la no YouTube e cheguei a compartilhá-la com amigos. E essa é apenas uma das demais composições da obra, que são muito bem contextualizadas e harmonizam perfeitamente com a proposta do jogo. A sonoplastia cumpre bem o seu papel, tanto nos ruídos provocados pela movimentação do personagem quanto pelos grunhidos emitidos pelos inimigos e sons de disparos. São efeitos condizentes com a ambientação, porém não elevam a experiência a um novo patamar, sendo apenas satisfatórios.

​O mesmo, no entanto, não se aplica à dublagem, que está em outro nível. Todos os atores entregam um trabalho excepcional, com falas bem entoadas que se tornam prazerosas e gratificantes de ouvir, dando o ritmo correto de urgência quando exigido ou um tom mais informal quando necessário. Os grandes destaques ficam por conta de Fawkes, Aylin e o “Pai de Todos”.

Em minhas considerações finais sobre Luna Abyss, um sentimento é concreto: eu gostei muito do todo que compõe a obra desenvolvida pela Kwalee Labs. Claramente percebemos o carinho com que o título foi desenvolvido, a começar pela boa história contada e pelo desenvolvimento dos personagens primários e secundários que, por mais que os encontros com eles sejam breves e esporádicos, merecem a nossa atenção.

​Na parte que condiz à jogabilidade, o jogo é sólido, apresentando um bom level design e combates — principalmente contra chefes — interessantes e intensos, trazendo um pacote de equilíbrio ideal nesse quesito. Já a parte técnica se mostra uma faca de dois gumes: enquanto a direção de arte brilha em vários aspectos, os gráficos, a falta de polimento e os problemas técnicos tiram um pouco da imersão. No entanto, esse fator é compreensível dado o escopo do projeto.

​O contraponto perfeito surge no brilhantismo da trilha sonora (OST), que esbanja qualidade, assim como a dublagem. Esta última é acompanhada por uma sonoplastia mais contida e modesta, mas que cumpre muito bem o seu papel. Pretendo jogar mais em uma nova dificuldade para buscar os 100% (e a platina), aprofundando-me ainda mais nesse universo repleto de nuances e segredos que guardam o Abyss.

Veredito

​Luna Abyss é uma grata surpresa para os amantes de ação, plataforma e ficção científica opressiva. Embora tropece na parte técnica e gráfica — evidenciando as limitações de escopo de uma produção independente na Unreal Engine 4 —, o título compensa suas falhas com um loop de jogabilidade extremamente satisfatório, combates intensos em estilo bullet hell e uma direção de arte inspirada. Impulsionado por uma trilha sonora memorável e uma dublagem impecável. É uma jornada vertical claustrofóbica e recompensadora que, apesar das arestas a serem aparadas, demonstra a paixão e o potencial de seus desenvolvedores. Vale muito a pena conhecer.

Nota

8.5

Jogo analisado com cópia gentilmente fornecida pela Kwalee LTD para PlayStation 5. O título está localizado em Português (Brasil), e também está disponível para Xbox Series X|S e PC (Steam).

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