
Se tem uma coisa que um jogador de Soulslike faz, e muito bem inclusive, é morrer! E tentar de novo, claro. E assim que gostaria de começar a review desse jogo, por que morrer faz parte da experiência de Clair Obscur: Expedition 33 (gosto de jogar na dificuldade mais difícil).
Expedition 33 é sobre um universo fantasioso e sombrio. Sobre a trajetória de uma civilização que está fadada a morrer e que tem algumas poucas décadas para solucionar esse problema. É um jogo que, apesar da capa Sci-Fi e da pegada de exploração, é essencialmente humano. Que retrata todas as tentativas e erros da sociedade existente. Um jogo sobre decisão. Sobre limite. E sobre o que te move quando parece que já tentou de tudo.
Logo de início, Expedition 33 te joga em um mundo (ou o que sobrou dele) com ar denso, visual carregado e ambientes que parecem sussurrar histórias antigas. O mundo de Clair não é do tipo que grita, ele murmura, sussurra bem baixinho. Se você corre, passa batido. Mas se para e observa, tem muita coisa escondida. Acho que isso é o que deixa ele próximo de um jogo Soulslike, fora o fato de você morrer incansavelmente.

Pegando esse gancho, grande parte das mortes serão causadas por inimigos. Esses monstros enigmáticos, chamados de Nevrons, possuem aparência estranha (e criativas). E por incrível que pareça, nem todos querem te matar. Alguns deles podem contar a sua história de vida, o porquê de eles estarem no estado em que estão. Os encontros com essas espécies podem desencadear missões secundárias, que para progredir, determinado gatilho precisa ser desencadeado, como adquirir um item, ou lutar com o inimigo em uma área específica. São missões curtas, algumas muito tristes, enquanto outras, muito bem pensadas. Depois que você fizer algumas, será fisgado pela busca incessante de encontrar novos Nevrons “pacíficos”.
A ambientação é muito boa. A exploração é leve, sem muitas delongas e, ao mesmo tempo, o level design foi feito para buscar esconder os itens, instigando o usuário a virar em cada esquina dos locais disponíveis em Clair. A direção de arte acerta ao não exagerar. A beleza do jogo está no silêncio e na melancolia. Ao passar por expedições anteriores, encontrar corpos de expedicionários que parecem retratar a dor, sofrimento, a fé e a esperança de seus últimos momentos, prestes a morrerem para algum Nevron ali presente.
A história do jogo é, como deve ser em todo bom RPG, fantástica. E é aqui que me reservo ao máximo, para não ofuscar a experiência daqueles que estão aqui para serem fisgados. Lumiére é a cidade da qual o jogo nos coloca já nos primeiros minutos, e ele nos apresenta aos personagens principais e o objetivo deles: fazerem parte da expedição 33. E a partir disso tudo é um mistério! O jogo é dividido em atos, e a cada ato, tem seu ponto de clímax. Clair Obscur é um jogo que pode chegar a ter quase 30 horas de duração da campanha ao fazer junto com alguns conteúdos secundários.
Não tem como começar a falar da jogabilidade desse jogo sem citar o fato de ser um RPG de turno. Sim, turno. Muitos vão vir com aquela conversa que jogos de turno não fazem mais sentido em 2025, que as tecnologias já avançaram muito e que jogos de turnos são pouco criativos, aquela mesma história de sempre: RPGs de ação vendem, RPGs de turno não. Ao menos é o rumo que as grandes desenvolvedoras de RPG da década de 90 seguiram.
Mas deixando de lado esse grande paradigma, vamos voltar ao fato de que esse jogo é um RPG de turnos, onde cada personagem, seja ele aliado ou inimigo, realizará uma ou mais (opa!) ações em seu turno.
As ações que o jogador pode executar são divididas em: ataques básicos, habilidades, atirar, consumir itens ou até pular o seu turno. Os inimigos também realizam ações como ataques muito simples ou uma sequência de combos mirabolantes.
Quando você usa uma habilidade, um Quick Time Event (vamos abreviar para QTE) será apresentado ao jogador e ele deverá apertar uma sequência de botões que adicionam mais dano às habilidades executadas. Além dessa interação na hora de executar os ataques, o jogo também te permite esquivar ou aparar ataques.

É isso mesmo que você leu, o jogo é de turno, mas você joga o tempo todo! Literalmente. Não executar os QTEs nos momentos corretos, ocasionará um menor valor de dano causado ao inimigo, que não é bom, mas é aceitável, você consegue viver com isso. Mas não executar as esquivas ou aparadas corretas, é desastroso, e você morrerá, muito. Existem habilidades de inimigos que são mortes garantidas se não desviadas, algumas até mesmo se você aparar, não será suficiente para evitar um game over.
Os recursos do jogo são bem diretos: você possui uma barra de vida (HP) para receber dano e uma barra de energia (AP) para utilizar habilidades. Cada personagem tem 5 atributos que podem ser aumentados conforme passa de nível: vitalidade, poder, agilidade, defesa e sorte. O dano que os personagens causam com suas habilidades são escalonáveis de acordo com os atributos das armas que os personagens estão empunhando.
O sistema por trás das armas de Clair Obscur é sensacional. As armas possuem atributos (fogo, terra, raio, gelo, luz, escuro, físico ou vazio), possuem passivas únicas que podem ser desbloqueadas, possuem um sistema de nível e, sinceramente, possuem um design fora do comum, extremamente criativas.

Mas não para por aí. Cada personagem pode equipar uma arma, uma roupa (apenas visual), até três Pictos e uma quantidade de Luminas de acordo com a quantidade de pontos que cada personagem acumulou durante a jornada.
Bem, Pictos são itens que os personagens podem equipar para garantir habilidades extras, como por exemplo: ao esquivar, recebe um AP, ou você recebe 30% de dano diminuído, mas não pode receber cura. A quantidade de Pictos é muito grande, e que garante uma grande quantidade de builds, deixando o fator de replay do Expedition 33 muito interessante.
A sensação de satisfação ao montar aquela build criativa, sem procurar guia na internet é impagável, de verdade. Ao utilizar determinada combinação de Pictos e Luminas, você pode sair de 100 pontos de dano para centenas de milhares ou milhões.
Apesar do público jovem não ser muito fã de RPGs de turno, Clair Obscur: Expedition 33 fornece uma belíssima experiência visual, musical, cinematográfica, criativa e adorável, rivalizando com esse contexto de que RPGs de turnos são monótonos. Feito por uma equipe que desafia a grande indústria de jogos com orçamentos milionários, entregando um ótimo jogo feito com muito carinho.
9.5
Cópia do Jogo adquirido pelo redator para PC.