Hell Clock – Análise

Pedro AlvesAnálises17/07/202668 Visualizações

Quando pensamos em rogue-likes de ação modernos, costuma-se associar a mitologia grega ou mundos de fantasia sombria como Hades. No entanto, a desenvolvedora brasileira Rogue Snail, em parceria com a publicadora Mad Mushroom, decidiu focar em nossas próprias raízes, contando a história de uma das guerras do Brasil. Lançado originalmente em julho de 2025, Hell Clock ganha uma nova onda de atenção agora, em meados de 2026, graças ao lançamento de sua inédita expansão, Cursed War, que trás um novo ato, novos biomas e também o rio de sangue.

Muito mais que apenas um jogo de ação frenético, o título propõe-se a revisar um dos episódios mais sangrentos da história do Brasil: a Guerra de Canudos. Para testar o peso dessa jornada infernal pelo sertão baiano, colocamos o game à prova tanto em uma máquina de alto desempenho (Ryzen 9 5900X e RTX 5080 em 4K/QHD) quanto em uma experiência portátil no ROG XBOX Ally.

Pajeú, o Conselheiro e as Feridas de Canudos

A narrativa se passa oito anos após o trágico desfecho do conflito (1896-1897), tratado aqui como o Massacre de Canudos. Assumimos o controle de Pajeú, ex-escravo e um dos lendários líderes militares da resistência sertaneja. Justificando perfeitamente a estrutura de repetição do gênero rogue-like, Pajeú ressuscita misteriosamente em um ambiente infernal e precisa lutar para escapar das salas.

O Sertão vira inferno, e o inferno torna-se Sertão.

Dividido em três atos bem marcados, o jogo nos faz avançar por diferentes pisos onde encontramos figuras históricas cruciais dahistória do massacre, como o líder espiritual Antônio Conselheiro, o Marechal Carlos Machado de Bittencourt e o médico e antropólogo Doutor Nina Rodrigues.

Como principal lobby do jogo, a cidade de Quixeramobim, atravessamos a Caatinga e também atravessamos o Inferno de Canudos.

O jogo trás como grande cartada a atmosfera. A dublagem e a localização em português são simplesmente impecáveis. O cuidado com os sotaques regionais, gírias e o vocabulário da época trazem um nível de representação cultural raríssimo na indústria atual, fazendo com que qualquer um que conheça a energia do interior baiano sinta-se profundamente respeitado e imerso na dor e no orgulho da luta travada na região.

Quando Hades Encontra Diablo no Sertão

A estrutura fundamental de Hell Clock bebe diretamente da fonte de rogue likes de ação Hades, Ravenswatch e Reignbreaker, mas a sua interface, o gerenciamento de recursos e a densidade de inimigos na tela remetem imediatamente a ARPGs clássicos como Diablo, Dragonkin e Path of Exile. A movimentação do protagonista e o peso de suas habilidades de combate são cadenciados e prazerosos, que lembra bastante a sensação mecânica de controlar campeões pesados e destrutivos, como o Urgot de League of Legends. Essa impressão dá-se principalmente das primeiras habilidades que possuímos já desbloqueadas no ato I.

O grande diferencial do gameplay é a mecânica Relógio do Inferno, onde run começa com um cronômetro regressivo de 7 minutos. Esse é o tempo que você tem para limpar as salas, coletar recursos, interagir com os cenários e derrotar os chefes. Após derrotar boses, ganha-se tempo no Hell Clock. É uma dinâmica que injeta uma dose enorme de adrenalina no loop de gameplay, embora possa incomodar quem prefere explorar cada canto com mais calma. Felizmente, a Rogue Snail incluiu a opção de pausar esse contador para permitir uma abordagem puramente casual. O sistema de drop automático de itens enquanto andamos, trás uma dinâmica já conhecida de ARPGs e bem vida nesta corrida contra o tempo. A existência de um mapa claro e objetivo facilita drasticamente a navegação, permitindo verdadeiras speed runs pelas salas.

Progressão sem Complicação

Embora pegue emprestado o visual de menus complexos dos ARPGs, a progressão de Hell Clock é surpreendentemente amigável. Ela se divide em quatro pilares introduzidos de forma muito fluida:

  • O Sino de Canudos: Desbloqueado logo no início, garante a evolução dos principais atributos de forma linear e recompensadora.
  • As Relíquias: Artefatos mágicos que você equipa e aprimora permanentemente para aumentar atributos base, interação com habilidades e acelera bastante o ritmo dos combates.
  • O Livro de Habilidades: Poderes que são liberados conforme avança-se pelos atos, intimamente ligados à ambientação e narrativa de cada nível.
  • Mapas de Constelações: Uma belíssima árvore de habilidades inspirada no Catolicismo Popular e em crenças de matrizes Indígenas e Africana (Candomblé). Ao acender as estrelas, você molda seus atributos sem o peso excludente de títulos como Path of Exile.

A Beleza do Cordel e os Tropeços da Unity

Visualmente, a direção de arte de Hell Clock merece muitos aplausos de pé. Além da inspiração em ARPGs e rogue-likes em seu design visual é também inspirado na literatura de cordel, o formato artístico que historicamente ajudou a espalhar as notícias da guerra pelas áreas rurais do Nordeste quando os jornais oficiais da capital não chegavam. A HUD estilizada exibe com clareza as esferas de vida e energia, além do nível do personagem que sobe em tempo real a cada abate.

Nota técnica: O jogo foi desenvolvido na Unity Engine e não possui recursos modernos nativos como DLSS, FSR ou Frame Generation. Além disso, a ausência de HDR nativo é perceptível, embora possa ser contornada no PC com o uso de mods como o RenoDX HDR.

No PC principal (Ryzen 9 5900X e RTX 5080), o jogo manteve médias excelentes acima dos 150 FPS em 4K. Contudo, a estabilidade derrapa nas taxas mínimas. Há a ocorrência de micro stutters incômodos, com o 1% low caindo severamente para a casa dos 30 FPS quando a tela fica cheia de inimigos explodindo ou no exato momento em que usamos a mecânica de esquiva.

No ROG Ally, a experiência repete-se, porém de maneira mais estável devida a menor taxa de quadros. Em 1080p a performance oscila em torno dos 30 FPS, mas o jogo brilha de verdade ao ser configurado em 720p, entregando entre 45 e 60 FPS estáveis. Graças à robustez da direção de arte, mesmo em resoluções mais baixas as texturas não sofrem com granulação excessiva.

O ponto negativo de polimento fica por conta de bugs específicos. A habilidade “Invocar Cabrunco” (Summon Brute), por exemplo, frequentemente faz com que o seu guardião aliado fique completamente travado na transição entre os pisos, forçando o jogador a gastar o cooldown da habilidade para reinvocá-lo durante o combate.

Veredito

Hell Clock é uma experiência frenética, divertida e profundamente imersiva, que consegue a proeza de nos ensinar de maneira lúdica e respeitosa sobre as dores do Massacre de Canudos. Apesar de alguns poucos defeitos técnicos na estabilidade de quadros e na inteligência artificial de seus lacaios, a integração entre a jogabilidade de ação e a riqueza cultural da história brasileira coloca este título em um patamar de destaque na produção nacional recente.

Nota

8

Jogo analisado com cópia gentilmente fornecida pela Mad Mushroom para PC (Steam). O título está dublado em Português (Brasil), e também está disponível para PlayStation 5 e Xbox Series X|S.

Anterior

Próximo Post

Procurar
Loading

Signing-in 3 seconds...

Signing-up 3 seconds...